Um passeio pelo mundo
Eu estava voltando para casa após uma consulta médica. Resolvi caminhar um pouco — era uma distância tranquila e sem morros.
Senti algo diferente na minha cabeça.
Não peguei meu celular, deixei-o no bolso.
Comecei a reparar na rua, nas flores, no céu. Era tudo bem mais vivo e confortável do que nos anúncios.
Minha cabeça esquentou um pouco, parecia que tinha algo dentro.
Sentei-me em um banco de pedra, embaixo de uma árvore fresca.
Queria pegar o celular e pesquisar o que era aquilo que estava acontecendo comigo.
Eu estava preocupada, mas o médico disse que estava tudo bem, meus exames estavam bem. Bastava eu seguir com a alimentação e atividade física como de costume.
Mas era estranho, algo parecia serpentear entre meu cérebro.
Algumas pessoas passaram pela rua, sempre de olho nas telas.
Abaixei o rosto com vergonha, não sei o porquê.
Alguns me cumprimentaram quando, sem querer, me viram, ao tirarem seus olhos das telas para conferirem o caminho.
Os animais de estimação presos em coleiras pareciam mais felizes que os donos presos em outra realidade.
Todo mundo tão igual, mesmas roupas, mesmos sapatos, mesmos acessórios.
Eu olhei para meu pulso, lá estava o mesmo relógio digital. Sem cor, tudo tão monocromático.
E minha cabeça se aqueceu novamente. Aquilo se movimentou como se buscasse conexão.
Tinha algo errado. Comecei a suar frio.
Senti-me observada por algo em paredes que me fechavam por todos os lados.
Levei a mão ao bolso para pegar meu celular.
Minha mente se tornou um carrossel e eu não compreendia aquilo.
Comecei a relembrar inúmeras situações da minha vida, ouvindo discursos lindos, decorando fórmulas para passar de ano com o mínimo desejável, votando em quem estava em primeiro lugar nas pesquisas, odiando quem eu nem conhecia.
Aquela coisa serpentou até meu ouvido e sussurrou...
“E se?”
Eu me levantei assustada.
Aqueles que passaram por ali já estavam longe.
Comecei a questionar o que poderia acontecer.
Comecei a desejar estar com roupas floridas e bonitas como as que vi no caminho.
Aquilo sussurrou novamente.
E se eu pudesse viver feliz sem ser comandada?
E se eu pudesse ter o direito de analisar, entender e compreender as coisas por conta própria?
Mas por que eu não fui ensinada a pensar?
Aquilo doeu em minha cabeça.
Puxei uma flor de um galho próximo e a coloquei na orelha.
Percebi algumas pessoas me olhando de longe por alguns instantes antes de retornarem seus olhos para as telas.
Puxei o celular do bolso, liguei a câmera e sorri para aquela pessoa refletida na tela.
Vi um casal de idosos sair de sua casa, de mãos dadas. Vestindo roupas diferentes, segurando uma sacola roxa.
Eles me observaram sorrindo.
Eu acenei, como se em uma chamada de vídeo.
— Estamos doando alguns livros para a biblioteca — disse a senhora. — Mas talvez você gostaria de colorir sua prateleira com histórias que vão te fazer pensar, compreender e enxergar o mundo.
Eu disse que sim, por impulso. E aquele sentimento serpentou por todo meu corpo.
— Mas, se eu tiver dúvidas, posso perguntar a vocês?
— Claro — sorriram.
— Não quero me afundar nas telas. O mundo parece tão mais vivo.
— Esse é um passo importante — disse o senhor. — Não é uma jornada fácil, mas cada passo dado a torna menos difícil.

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