A cova
Aquele dia nublado, tão coberto pelas mantas fofas e cinzentas, estava ainda mais triste que o normal.
Depois de meses de luta, de esperança, de empenho... era hora de pôr um fim.
O destino já havia sido aceito.
O pai já havia comprado a passagem para uma outra realidade.
Era hora de se despedir.
Nem as flores que Mariane carregava deixavam o ambiente alegre e colorido.
Eram lírios brancos. Mas ela nem sabia o porquê de ter escolhido aquelas flores.
Todos os presentes estavam em silêncio, escondidos embaixo de seus guarda-chuvas.
Nem as crianças corriam naquela hora. As mãos pesadas afundavam seus ombros no chão.
Mas havia algo ali, observando tudo.
Seus olhos não eram encarados, mas eram sentidos.
Era como um vento frio que soprava a nuca de alguns e dizia: “Eu sei o que vocês fizeram”.
Faltava pouco para enterrarem o caixão do pai, mas o padre ainda não havia chegado.
Mariane estava sozinha em um canto, seu vestido preto se destacava entre as lápides de concreto e as flores mortas.
E, em outros cantos, havia outros quatro, longe dos demais.
Por alguns instantes, gelados como as estátuas do cemitério, os cinco se entreolharam, arregalando os olhos como se desejassem alertar um ao outro sobre algo que estava ao lado de cada um: uma figura conhecida, mas de olhar assustador.
Um barulho quebradiço ocorreu ali perto, e eles voltaram a respirar. Alguma criança esbarrou em um vaso de flores.
Se entreolharam novamente, procurando algo ao redor. Mas aquilo não estava mais ali.
O padre chegou. Eles rezaram em soluços.
E, por fim, o caixão foi enterrado antes de a leve chuva cair sobre a cidade.
Já era noite. E, como de costume, a família se reuniu mais uma vez em homenagem ao falecido.
Alguns reunidos na sala de jantar, outros na varanda, alguns escorados, encarando uns aos outros.
Desconfortáveis, vigilantes, ansiosos, acuados.
Mas a família estava toda.
E, entre eles, uma presença que ninguém ousava encarar, se movendo como vento, observando em silêncio, caminhando entre os móveis.
Os prantos cantaram, as memórias fluíram, as conversas vieram após um lanche simples.
Sem excessos, sem brincadeiras. Apenas momentos de honra.
Talvez, para alguns, de remorso e de culpa.
O dia se encerrava e o outro começava a contar no relógio digital ao lado da cama. E foi nesse momento que Mariane dormiu. Tão rapidamente quanto o cair das gotas de chuva fina.
Mas lá estava ela novamente, naquele cemitério cinzento e escuro, perdida entre os túmulos.
Alguns passos ecoaram em algum lugar perto.
E Mariane ouviu claramente o vento gelado em sua nuca: “Eu sei o que vocês fizeram”.
Ela correu tão rápido quanto podia, pedindo para acordar.
Os passos que ecoavam trombaram com os dela.
Ambos caíram naquelas poças geladas.
“Mariane?”
“Igor? O que está acontecendo?”
“Não sei... Eu estava dormindo e...”
“SOCORRO!” — uma mulher gritou.
“Tem mais gente aqui.” — Mariane se pôs de pé e caminhou.
Seu irmão, Igor, a acompanhou pelos túmulos.
Eles respondiam aos gritos e caminhavam em direção à mulher.
Agora havia quatro pessoas dentro do cemitério — assustadas, molhadas e desesperadas.
Falta um... Talvez o mais inocente.
Mas eles não tocaram no assunto, nem quando o vento os rodeou, repetindo: “Eu sei o que vocês fizeram”.
Alguns choravam, outros balançavam as pernas sem rumo.
Algo se quebrou no chão, algo pesado como o concreto.
Mesmo tropeçando e cruzando as pernas, eles correram em direções opostas.
Mariane seguiu sozinha. Seus pensamentos já estavam no presente e, talvez por isso, ela se chocava tanto contra as lápides e os túmulos.
Não foi intencional, mas ela, o irmão e os primos causaram um acidente fatal em uma rodovia.
Cansada de correr, ela se escorou e derramou tantas lágrimas quanto a chuva.
Uma outra voz surgiu depois de um tempo.
Ela reconheceu. Era o primo mais novo, que estava lá no dia do acontecimento.
“PEDRO!” — começou a gritar.
Procurando a fraca voz entre os sussurros do vento.
“Eu sei o que vocês fizeram.”
Ninguém mais respondeu.
Os outros haviam sumido.
Ela caminhou, chamando pelo primo.
Suas botas tocaram a terra e, logo, seu joelho já tocava a lama, sendo puxado para dentro de uma cova.
“EU SEI O QUE VOCÊS FIZERAM.” — repetia o vento, ganhando forma.
“EU SEI!” — era o pai, com um olhar tão feroz quanto a brasa.
“Não foi por querer.” — implorava, tentando retirar sua perna daquele buraco.
“Você sempre fez tudo intencionalmente” — retrucou — “Você sempre fez o mal porque quis”.
“Não... é mentira!”
“Nós vamos levar vocês embora. Todos vocês.”
A imagem do pai sumiu como fumaça ao vento.
Mariane começou a retirar a perna da cova.
Estava pesado e lamacento, a terra parecia concreto e cada esforço demandava energia extra.
Não havia no que se apoiar.
E ela não conseguia gritar por ajuda.
Apenas puxava sua perna.
Dezenas de mãos surgiram novamente, puxando-a de volta para a cova.
Os gritos saíram de sua garganta, tão altos quanto um alarme.
Mas ela estava só.
Seu coração parecia já estar longe dali.
Mariane estava ao chão, deitada, se arrastando como se usasse o chão para escalar.
Sua bota ficou naquele buraco lamacento.
Foi a única coisa que as mãos levaram para o túmulo.
A escuridão cedeu por alguns breves instantes quando alguns raios cortaram o ar.
Ela se virou e reconheceu o túmulo que tentou lhe puxar.
Estivera ali na tarde daquele dia anterior.
O cansaço bateu e seus olhos se fecharam.
Acordou com o relógio despertando alto.
Seu corpo doía.
Havia muitas ligações não atendidas e mensagens em seu celular.
Mariane ainda estava fraca, sentada na cama, agradecendo por tudo ter sido um pesadelo.
Ela olhou para a janela e depois para a sapateira.
Seus olhos derramaram água e sua boca foi tampada pela mão.
O vento soprava lá fora naquele dia ensolarado, esperando-a sair de casa.
Ela não queria sair.
Na sapateira havia apenas uma bota, cheia de barro ainda úmido.

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