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Não olhe para trás.

Foto do escritor: Odilon Júnior
Odilon Júnior
há 3 minutos
5 min de leitura

— Ah... Você aqui, novamente — disse uma voz rouca. — Não! Não! Não!

Aquilo se escondeu na escuridão até que a pessoa voltou seu rosto para o ponto de luz do outro lado do ambiente.

— Não olhe para trás! Você não quer me ver! E você NÃO pode me ver.

— O que eu faço aqui?

— Você morreu.

O silêncio reinou enquanto a pessoa caminhava lentamente para a frente. Seus passos pareciam flutuar no ar, ao mesmo tempo que enfrentavam uma correnteza em sentido contrário.

— Eu morri... Acho que me lembro de como.

— Claro que lembra — sussurrou a voz rouca, bem pertinho de sua nuca. — Todos lembram. Só deixam de lembrar quando transitam para uma nova vida.

— Por quê? Eu não quero ir... Não quero voltar para lá.

— Tem medo de algo?

A pessoa não respondeu. Parecia assistir a pequenos filmes mudos em sua mente.

A criatura continuava seguindo-a.

Algumas pessoas surgiram no horizonte, caminhando em sentido contrário.

— Por que eu não posso ir com elas? — perguntou o ser solitário.

— Não olhe para os olhos delas. Continue caminhando.

— Você não me respondeu.

A pessoa parou.

— Nem você... E, quanto mais tempo você fica parada, mais afunda no seu “carma”.

— Eu não quero mais viver.

— Eu sei, mas é preciso.

A pessoa olhou novamente para trás.

Conseguiu ver uma capa preta se esconder atrás de algumas pessoas.

— Eu não tenho medo de você. Apareça!

— Claro que não tem — respondeu a voz rouca, atrás da pessoa.

Ao virar-se, encontrou um grande espelho flutuando pouco acima do chão, refletindo um rosto sem expressão. As mãos que seguravam o espelho se encolheram para trás.

— Você tem medo disso. Não de mim. Você nunca me viu.

— Eu...

O espelho se quebrou, dando lugar ao caminho até o pequeno ponto brilhante.

— Continue caminhando. Eu vou te guiar até o final enquanto ajeito as coisas que você precisa levar.

A pessoa encarou os olhos de uma alma que a observava.

— Diana?

— Não olhe...

A alma avançou contra a pessoa, apontando as mãos em um gesto furioso, cerrando os dentes e lançando-lhe um olhar feroz.

A pessoa caiu.

Sentiu seu corpo astral se encharcar de algo pegajoso que lhe drenava a luz.

— Eu disse para não olhar. Eles vão querer se vingar de você. Pelo que você fez a eles.

— Eu não fiz nada...

— É sempre essa desculpa. Levante-se! Você não é digna de se afundar neste lugar. Ele iria te torturar e te cuspir em uma vida qualquer.

— Onde eu estou?

A criatura não respondeu. O único ruído que emitia era o de sua respiração.

A pessoa se levantou e tentou avançar.

— Você está em um lugar nada feliz. Se tivesse sido uma boa pessoa, talvez sua jornada aqui fosse mais leve.

— Eu fui...

— Pelo visto, não. Diana discorda. Ela sentia a inveja que você tinha dela. Sempre soube que era você quem a difamava... Sem falar na traição. A lista com essa pessoa é grande, sem falar nas outras que já passaram por aqui...

— Mentira.

— Eu não minto, e o registro de suas ações também não.

— Eu não fiz por querer.

A criatura riu em suspiros, observando os passos lentos da pessoa em meio a tantas almas.

— Toda ação é consciente.

— Não!

— Você escolheu o pior para os outros, visando elevar seu ego. Você filmou pessoas em situações precárias para fazer piadas e engajar sua opinião distorcida. Você deixou de respeitar os limites que lhe foram impostos e usou sua falta de personalidade como desculpa...

— Chega! — gritou aos prantos.

— Não! O seu caminho até a próxima vida não acabou. Ainda há muitos a serem vistos. Tantas almas prejudicadas por suas escolhas, tantas mortes.

A pessoa se esforçou para caminhar. Sentia uma água lamacenta e invisível bater em sua cintura.

— Me perdoem — chorava.

— Perdão não funciona aqui — exclamou a criatura em um tom grave. — Perdão se pede com sentimento puro, não com isso que você carrega no peito. Você só está tentando o caminho mais fácil, novamente, para se safar.

A pessoa tentou correr, mas mal conseguia sair do lugar.

A luz parecia cada vez mais distante.

Mais e mais almas surgiam do além.

E aquela coisa seguia a pessoa como um vulto, uma sombra.

— Eu não consigo mais andar — disse, ajoelhando-se.

— Tudo bem! — sussurrou a voz em seu ouvido direito. — A gente tem toda a eternidade para te fazer chegar lá.

Em súbita raiva, a pessoa se levantou novamente. Agora, a água lamacenta parecia estar cobrindo-lhe o peito.

A criatura não fugiu. Apenas segurou um pequeno espelho diante de seu rosto.

A pessoa começou a dar leves passos para trás.

Sentiu que havia cometido a pior de suas escolhas.

A criatura usava um manto preto e gasto, mas possuía, por baixo, um traje preto com detalhes dourados, como se fosse novo. Suas mãos eram esqueléticas, e ela possuía várias, cada uma segurando um espelho diferente.

O rosto estava coberto, mas parecia sorrir.

Suas pernas tocavam o chão e faziam parte daquela água lamacenta.

Todas aquelas almas que haviam passado agora a seguiam, com olhares furiosos direcionados à pessoa.

A criatura moveu um espelho para a lateral e mostrou parte de seu enorme sorriso.

A pessoa sentiu as pernas tremerem e tentou se afastar cada vez mais.

A criatura moveu outro espelho, revelando mais uma parte de seu gigantesco rosto, indescritível por completo.

Tudo o que a pessoa conseguia descrever era o sorriso largo e os olhos fundos como um buraco negro.

— Eu... Eu sinto muito.

— Não sente! O que você sente é medo — disse a criatura, sem mover os lábios.

— Por favor... Me deixa em paz.

— Paz se conquista, não se exige. Paz se mantém entre todos, não só para si.

— Por que você está fazendo isso comigo?

A pessoa já sentia a água lamacenta alcançar seu pescoço.

— É minha função levar as almas para uma nova vida. Mas, antes, elas precisam passar pelo caminho do carma. Só assim eu saberei aonde devo colocá-las. Era para vocês aprenderem as lições e voltarem aqui cada vez mais leves... Enfim.

A pessoa começou a afundar. Tentava erguer os pés, mas nada conseguia fazer para sair daquilo que a encobria.

— Me tira daqui!

— Não posso. Você escolheu me confrontar, você escolheu parar, você escolheu olhar para trás.

— Por favor...

— Seu drama não funciona aqui.

A pessoa começou a perceber que a água lamacenta era, na verdade, um punhado de almas conhecidas que a puxavam para o fundo. Eram almas e rostos conhecidos, com olhares decepcionados.

— Por...

— Está tudo bem! Isso mostra que tipo de carma você ainda precisa carregar.

A criatura se remexeu, e seu sorriso se desfez.

Imóvel durante um longo tempo, enquanto sentia a pessoa se debater e gritar dentro daquela água lamacenta, a criatura abriu a boca e, por fim, regurgitou a pessoa para fora.

Em silêncio, a criatura recompôs seu sorriso e se escondeu nas sombras, enquanto sua forma mudava.

A pessoa gemia no chão e chorou por diversos dias.

Até que começou a caminhar novamente em meio à água lamacenta, na esperança de um dia alcançar a luz de uma nova vida.

— Eu não vou conseguir — resmungava.

— Vai, sim! — afirmava a criatura, com uma voz aguda e fina. — Nem que eu te vomite quantas vezes mais for preciso.

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