Não olhe para trás.
— Ah... Você aqui, novamente — disse uma voz rouca. — Não! Não! Não!
Aquilo se escondeu na escuridão até que a pessoa voltou seu rosto para o ponto de luz do outro lado do ambiente.
— Não olhe para trás! Você não quer me ver! E você NÃO pode me ver.
— O que eu faço aqui?
— Você morreu.
O silêncio reinou enquanto a pessoa caminhava lentamente para a frente. Seus passos pareciam flutuar no ar, ao mesmo tempo que enfrentavam uma correnteza em sentido contrário.
— Eu morri... Acho que me lembro de como.
— Claro que lembra — sussurrou a voz rouca, bem pertinho de sua nuca. — Todos lembram. Só deixam de lembrar quando transitam para uma nova vida.
— Por quê? Eu não quero ir... Não quero voltar para lá.
— Tem medo de algo?
A pessoa não respondeu. Parecia assistir a pequenos filmes mudos em sua mente.
A criatura continuava seguindo-a.
Algumas pessoas surgiram no horizonte, caminhando em sentido contrário.
— Por que eu não posso ir com elas? — perguntou o ser solitário.
— Não olhe para os olhos delas. Continue caminhando.
— Você não me respondeu.
A pessoa parou.
— Nem você... E, quanto mais tempo você fica parada, mais afunda no seu “carma”.
— Eu não quero mais viver.
— Eu sei, mas é preciso.
A pessoa olhou novamente para trás.
Conseguiu ver uma capa preta se esconder atrás de algumas pessoas.
— Eu não tenho medo de você. Apareça!
— Claro que não tem — respondeu a voz rouca, atrás da pessoa.
Ao virar-se, encontrou um grande espelho flutuando pouco acima do chão, refletindo um rosto sem expressão. As mãos que seguravam o espelho se encolheram para trás.
— Você tem medo disso. Não de mim. Você nunca me viu.
— Eu...
O espelho se quebrou, dando lugar ao caminho até o pequeno ponto brilhante.
— Continue caminhando. Eu vou te guiar até o final enquanto ajeito as coisas que você precisa levar.
A pessoa encarou os olhos de uma alma que a observava.
— Diana?
— Não olhe...
A alma avançou contra a pessoa, apontando as mãos em um gesto furioso, cerrando os dentes e lançando-lhe um olhar feroz.
A pessoa caiu.
Sentiu seu corpo astral se encharcar de algo pegajoso que lhe drenava a luz.
— Eu disse para não olhar. Eles vão querer se vingar de você. Pelo que você fez a eles.
— Eu não fiz nada...
— É sempre essa desculpa. Levante-se! Você não é digna de se afundar neste lugar. Ele iria te torturar e te cuspir em uma vida qualquer.
— Onde eu estou?
A criatura não respondeu. O único ruído que emitia era o de sua respiração.
A pessoa se levantou e tentou avançar.
— Você está em um lugar nada feliz. Se tivesse sido uma boa pessoa, talvez sua jornada aqui fosse mais leve.
— Eu fui...
— Pelo visto, não. Diana discorda. Ela sentia a inveja que você tinha dela. Sempre soube que era você quem a difamava... Sem falar na traição. A lista com essa pessoa é grande, sem falar nas outras que já passaram por aqui...
— Mentira.
— Eu não minto, e o registro de suas ações também não.
— Eu não fiz por querer.
A criatura riu em suspiros, observando os passos lentos da pessoa em meio a tantas almas.
— Toda ação é consciente.
— Não!
— Você escolheu o pior para os outros, visando elevar seu ego. Você filmou pessoas em situações precárias para fazer piadas e engajar sua opinião distorcida. Você deixou de respeitar os limites que lhe foram impostos e usou sua falta de personalidade como desculpa...
— Chega! — gritou aos prantos.
— Não! O seu caminho até a próxima vida não acabou. Ainda há muitos a serem vistos. Tantas almas prejudicadas por suas escolhas, tantas mortes.
A pessoa se esforçou para caminhar. Sentia uma água lamacenta e invisível bater em sua cintura.
— Me perdoem — chorava.
— Perdão não funciona aqui — exclamou a criatura em um tom grave. — Perdão se pede com sentimento puro, não com isso que você carrega no peito. Você só está tentando o caminho mais fácil, novamente, para se safar.
A pessoa tentou correr, mas mal conseguia sair do lugar.
A luz parecia cada vez mais distante.
Mais e mais almas surgiam do além.
E aquela coisa seguia a pessoa como um vulto, uma sombra.
— Eu não consigo mais andar — disse, ajoelhando-se.
— Tudo bem! — sussurrou a voz em seu ouvido direito. — A gente tem toda a eternidade para te fazer chegar lá.
Em súbita raiva, a pessoa se levantou novamente. Agora, a água lamacenta parecia estar cobrindo-lhe o peito.
A criatura não fugiu. Apenas segurou um pequeno espelho diante de seu rosto.
A pessoa começou a dar leves passos para trás.
Sentiu que havia cometido a pior de suas escolhas.
A criatura usava um manto preto e gasto, mas possuía, por baixo, um traje preto com detalhes dourados, como se fosse novo. Suas mãos eram esqueléticas, e ela possuía várias, cada uma segurando um espelho diferente.
O rosto estava coberto, mas parecia sorrir.
Suas pernas tocavam o chão e faziam parte daquela água lamacenta.
Todas aquelas almas que haviam passado agora a seguiam, com olhares furiosos direcionados à pessoa.
A criatura moveu um espelho para a lateral e mostrou parte de seu enorme sorriso.
A pessoa sentiu as pernas tremerem e tentou se afastar cada vez mais.
A criatura moveu outro espelho, revelando mais uma parte de seu gigantesco rosto, indescritível por completo.
Tudo o que a pessoa conseguia descrever era o sorriso largo e os olhos fundos como um buraco negro.
— Eu... Eu sinto muito.
— Não sente! O que você sente é medo — disse a criatura, sem mover os lábios.
— Por favor... Me deixa em paz.
— Paz se conquista, não se exige. Paz se mantém entre todos, não só para si.
— Por que você está fazendo isso comigo?
A pessoa já sentia a água lamacenta alcançar seu pescoço.
— É minha função levar as almas para uma nova vida. Mas, antes, elas precisam passar pelo caminho do carma. Só assim eu saberei aonde devo colocá-las. Era para vocês aprenderem as lições e voltarem aqui cada vez mais leves... Enfim.
A pessoa começou a afundar. Tentava erguer os pés, mas nada conseguia fazer para sair daquilo que a encobria.
— Me tira daqui!
— Não posso. Você escolheu me confrontar, você escolheu parar, você escolheu olhar para trás.
— Por favor...
— Seu drama não funciona aqui.
A pessoa começou a perceber que a água lamacenta era, na verdade, um punhado de almas conhecidas que a puxavam para o fundo. Eram almas e rostos conhecidos, com olhares decepcionados.
— Por...
— Está tudo bem! Isso mostra que tipo de carma você ainda precisa carregar.
A criatura se remexeu, e seu sorriso se desfez.
Imóvel durante um longo tempo, enquanto sentia a pessoa se debater e gritar dentro daquela água lamacenta, a criatura abriu a boca e, por fim, regurgitou a pessoa para fora.
Em silêncio, a criatura recompôs seu sorriso e se escondeu nas sombras, enquanto sua forma mudava.
A pessoa gemia no chão e chorou por diversos dias.
Até que começou a caminhar novamente em meio à água lamacenta, na esperança de um dia alcançar a luz de uma nova vida.
— Eu não vou conseguir — resmungava.
— Vai, sim! — afirmava a criatura, com uma voz aguda e fina. — Nem que eu te vomite quantas vezes mais for preciso.

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