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A porta

Foto do escritor: Odilon Júnior
Odilon Júnior
há 2 minutos
4 min de leitura

Exercício de escrita criativa realizado hoje, 23/09/2026, com o tema "Porta". Esse exercício permitiu explorar duas variações de contos, trazendo significados diferentes e o uso do sobrenatural - terror - em um dos contos.


Microconto: A porta semiaberta

Havia uma porta fora de casa que um homem adulto só a via aberta quando estava longe.

E mesmo quando ela se aproximava, sorrindo, esperançoso... a porta se fechava.

Nos entalhes do batente de madeira escura, havia formas que lembravam olhos, olhos brilhantes que o encaravam de longe.

Um calor fino passava pela abertura e se conectava ao do homem.

Mas somente quando estava longe.

Sempre que se aproximava, os olhos sumiam, a porta se fechava.

Por mais que o homem quisesse, sentia a energia do que estava por trás da porta. Ele seguiu adiante.

A porta continuou semiaberta, de longe.

E o homem trilhou outros caminhos.

Sem chaves, sem destino.

No seu peito carregava uma porta semiaberta, uma que se mantinha assim independente da distância. Buscando encontrar uma outra com essa mesma frequência, compatível.

 

Conto: A porta

Teresa saiu cedo de casa para trabalhar.

Estava triste: era segunda-feira, mal havia descansado no domingo e já estava enfrentando a extensa e exploratória jornada de trabalho novamente.

Uma manhã amena, ônibus lotado de rostos cansados e quase vazios.

Seu dia de trabalho foi, como sempre, cheio de organização, reuniões, trabalhos urgentes.

Ela ansiava por viver livre daquilo: sem a pressão do dia a dia, sem a necessidade de vender mais que o necessário, sem ter que comprar o que não precisa. Mas o cansaço não dava espaço ao pensamento, à crítica.

Ela só pensava em chegar em casa, jantar, descansar a cabeça afundada em algum programa de televisão e dormir cedo para começar tudo outra vez no dia seguinte.

Ela bateu o ponto às dezoito horas. Já não era mais fã de fazer hora extra para adiantar serviço.

O ônibus passou, ela nem sequer se esforçou para correr para conseguir pegá-lo.

Continuou caminhando tranquila, observando, talvez depois de muitos meses sem fazer isso, as árvores, os pássaros, o anoitecer daquela cidade. Já fazia um frio gostoso de se sentir.

Bateu a saudade de ver as estrelas em um céu sem poluição luminosa. Saudade de ouvir o canto da noite sem a poluição sonora. Saudade de se sentir viva sem estar tomada pelo cansaço e estresse.

Ela desejava, fortemente, encontrar uma saída de tudo isso. E estava disposta a pagar algum preço compatível com seus bens.

Teresa caminhou pelas ruas, ignorando as placas de promoção e os anúncios de novidades.

Seu salto elevava sua postura, lhe dava autoridade e elegância. O que era um contraste cruel ao que ela sentia.

Depois de algumas esquinas, rumando ao terminal de ônibus para ir embora depois de uma longa caminhada, Teresa começou a se sentir observada.

Por um instante ela parou - fingiu olhar um cartaz na vitrine de uma loja e apreciar os produtos - e disfarçadamente observou quem ela conseguia enxergar.

Ninguém parecia estar a vigiando.

Todos com aquele olhar vazio, ou vidrados em telas, ou comendo algo enquanto caminhavam.

Ela continuou caminhando.

Arrepiou-se com o suspiro que lhe batia na nuca.

Parou outra vez em outra vitrine.

Olhou o entorno novamente.

Ninguém parecia encará-la.

Exceto um homem do outro lado da rua que sorria. A aba de seu chapéu cobria-lhe os olhos, seu sobretudo claro escondia-lhe as mãos.

Teresa lembrou que ele estava lá atrás, mas até então, ele não parecia ser um perseguidor.

Ela caminhou tão rápido quanto as batidas de seu coração.

Mas o terminal de ônibus parecia estar mais longe do que o de costume.

E quando olhava para outro lado da rua, o homem estava lá, escorado em algum poste, na mesma posição, sorrindo.

Teresa desviava das pessoas como se buscasse um lugar para respirar melhor, sem sentir seu peito pesado.

O homem continuava do outro lado da rua e isso fazia a mulher querer chegar ao seu destino mais rápido ainda. Como ele se movia tão rápido?

Teresa entrou no terminal. Faltava alguns minutos para que o ônibus para o seu bairro chegasse.

Ela foi ao banheiro, lavou o rosto. Depois procurou um lanche e uma água para se alimentar e hidratar.

A garrafa de água começou a sacudir e os olhos de Teresa ficaram vidrados no outro lado do pátio.

O homem estava lá, escorado na parede, sorrindo. E atrás dele havia uma porta cinza com a palavra “saída” escrita.

O homem assentiu, puxando a aba do chapéu, e entrou pela porta, deixando-a aberta.

Teresa não sabia o que fazer... ou talvez não quisesse se render ao que realmente queria fazer.

Seu desejo de ir para casa estava a cada passo mais distante.

Seu coração já mirava na saída.

Sua mente se rendia à fantasia de encontrar um lugar melhor.

Ela caminhou até a outro lado do pátio, como se andasse em meio a formigas que desviavam de uma gota d’água.

Seu corpo já estava próximo à porta.

Faltava poucos metros, centímetros.

Ela já conseguia sentir aquele frio confortável que vinha da escuridão.

Um aperto forte a puxou para trás.

Um olhar frio penetrou em seus olhos.

- Senhora! Houve uma acidente do outro lado dessa faixa. Não é permitido a entrada de ninguém! – disse o segurança.

- O-o quê? Me desculpe. Eu estava distraída.

- Não queremos outro cadáver lá dentro. – afirmou, ainda com um tom de voz pesado, e dirigiu a mulher para longe.

Teresa consentiu, se desculpou novamente e desceu as escadas a tempo de pegar o ônibus para o seu bairro.

Chegou em casa mais tarde que o de costume.

Sem fome, apenas tomou um banho quente e jogou-se no sofá.

A televisão estava desligada.

O vidro escuro refletia uma porta cinza do outro lado do cômodo. Entreaberta.

Teresa a encarou pelo reflexo.

Seu corpo queria levantar e descobrir o que havia naquele lugar. Mas havia algo que lhe prendia no sofá.

Algo que percorria todo o seu corpo e drenava suas forças como acontecia todos os dias após o trabalho.

Ela dormiu.

E no outro dia, seguiu a sua rotina normalmente, esperando reencontrar a porta entreaberta.

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