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O espelho molhado

Foto do escritor: Odilon Júnior
Odilon Júnior
há 15 minutos
5 min de leitura

- Diana, você pode relaxar. Está segura aqui. – disse uma voz feminina, suave, e a cada palavra o corpo ia se afundando naquela poltrona macia. – Eu estarei com você durante todo o percurso... Respire lentamente. Nós faremos uma viagem para dentro do seu subconsciente.

Diana tinha acabado de se mudar para uma nova cidade. Dizia que busca novas oportunidades. E encontrou. Entretanto, o novo emprego exigia acompanhamento psicológico e, se necessário, psiquiátrico para que os funcionários permanecessem mentalmente saudáveis durante a jornada de trabalho.

Ela sorria externamente, mas a escuridão que suas pálpebras projetavam mexiam com algo internamente.

- Doutora... não podemos só conversar? – ofegava.

- Você está segura aqui, Diana. Continue relaxando. É normal se assustar na primeira vez. E está tudo bem sentir o medo.

Diana tentava respirar devagar, enchia o peito e depois o esvaziava. Mas seu coração corria tanto no mesmo lugar, que ela precisava de mais ar.

- Eu não vou conseguir! – despertou.

- Diana, essa é a quarta vez que tentamos e você desiste antes mesmo de começar.

- Mas, doutora, podemos só conversar, falar dessas coisas. – seu sorriso parecia esculpido em mármore.

- Você está a um ano na empresa, está indo bem. Mas tem há diversas reclamações sobre a forma como você manipula as pessoas, as maltrata, e depois adula. Precisamos achar a causa do que faz você ser assim e tratar. Eu, como doutora em psicologia, não acredito que os remédios vão te ajudar.

- Eu posso muito bem lidar com essas pessoas. Não preciso de terapia para isso. É meu trabalho...

- Seu trabalho envolve a saúde humana, tanto física quanto mental. Deixar o ambiente de trabalho hostil não é tarefa sua!

- Eu só falo as verdades que as pessoas precisam ouvir...

- Então encare sua verdade! – insistiu rispidamente. – Se conseguirmos avançar hoje, podemos negociar uma sessão a menos no mês. O que acha?

Barganhar não era a melhor das hipóteses, mas como a paciente já havia progredido em alguns pontos, talvez um benefício a faria morder a isca.

Diana ainda estava aflita, seu peito pesado, seu suor começava a escorrer.

- Dá para colocar pelo menos uma música de fundo para ocupar a mente? Ou um cheiro que ajuda a relaxar? – negociou.

- Claro!

Miriam levantou-se, ajeitou o difusor com uma essência de camomila e laranja doce, e um toque de lavanda. Depois colocou uma trilha sonora calma, com sons da natureza que inundavam o ambiente iluminado pela forte luz dourada do exterior.

Diana se jogou na poltrona novamente. Seus ombros caíram e suas mãos se cruzaram sobre o umbigo.

A psicóloga percebeu novamente o sinal de bloqueio e de defesa. Mesmo assim, amansou sua voz e guiou Diana pela viagem lenta e relaxante.

“Finalmente!” – comemorou após os longos minutos.

- Diana, você está em sua sala confortável. Como ela é?

- É... é uma sala com um sofá e televisão grande.

- O que mais você vê?

- Uma porta vermelha... tem alguns quadros na parede, mas não consigo ver o que estão neles.

- Certo... o que essa porta te passa de emoção?

- Eu não quero abri-la.

- Tudo bem. Tudo bem. – Miriam encontrou algo importante, mas precisava ganhar a confiança de Diana. – Apenas me fale o que ela te passa de emoção.

- Vou me deitar no sofá primeiro... tão confortável.

- É isso que queremos aqui, um ambiente confortável e seguro para que você possa continuar e ter para onde voltar.

- A porta me chama... mas eu não quero ir. Ela parece estar levando para um lugar escuro... é... ruim...

- Tudo bem. A porta leva para um lugar desconhecido. Por isso a sensação de escuridão. Quando quiser ir, nós vamos. Agora observe o ambiente...

- Tudo tão calmo... – Diana permanecia imóvel, exceto pelos seus braços que se rendiam a gravidade.

- Existe alguma fonte de luz que você possa levar nessa viagem?

- Meu celular está perto da televisão... Não tem imagem na televisão, só aquele ruído...

- Seu celular é uma fonte de luz. – incentivou, percebendo que, até em lugar confortável, a paciente não queria ver algo.

- A porta se abriu... meu coração está... onde está a saída?

- Calma, Diana! Seu coração se assustou com você. A porta só se abriu porque você se dispor a se aventurar.

- Não tem outra porta aqui.

- Não precisa, eu estou aqui! Você está segura.

Diana encolheu-se levemente para dentro da poltrona.

Miriam a guiou pelos corredores escuros.

Havia portas que Diana abria, mas não entrava.

Livros jogados que ela simplesmente ignorava.

Quadros na parede pintados de cinza.

Portas que ela nem sequer cogitava abrir.

Diana observou que o ambiente estava ficando cada vez mais  molhado, sempre perguntando pela saída. Por que não a via?

- Não se preocupe, vamos sair quando necessário.

- Tem muita água aqui...

- De onde vem essa água?

- Acho que de um espelho... um espelho no centro da sala.

- “Ela está reprimindo algo.” – analisou mentalmente – Tudo bem! Quero que você se ponha de frente a ele e observe-o.

- Tem outra coisa aqui... está me observando da escuridão.

- Acalme-se, Diana...

- Por favor... me tira daqui.

- Diana, acalme-se e olhe para o espelho. – Miriam levantou-se de sua poltrona e sentou-se em um banquinho ao lado da paciente. – Eu estou do seu lado e somente nós estamos aqui.

- O espelho está escuro... e ele chora. O que é essa coisa aqui dentro?

- Talvez algumas emoções reprimidas. Tudo o que está aí dentro pode ser compreendido.

- Ele está me refletindo. – as lágrimas de Diana saiam de seu corpo enquanto ela pronunciava palavras que pareciam afundar seu peito. – Eu... eu estou...

- Diana, continue. Eu estou aqui...

Diana emudeceu-se. Seus lábios se cerraram junto aos dentes.

Ela se via do outro lado do espelho, segurando uma âncora tão enferrujada e com um sorriso esculpido e assustador.

Seus olhos se encontravam com o do reflexo, que observava os mesmo ângulos que ela o fazia.

A água subia até a cintura do reflexo e ficava tão verde quanto o veneno.

Ela olhava para os lados, procurava uma porta, corria em direção a voz de Miriam que se ocultava na escuridão.

Mas o espelho sempre a encontrava ali dentro.

E ele se partiu antes de Diana se afundar naquele oceano verde escuro que se formou.

Ela gritava abafado pela água que entrava em seus pulmões.

Mexia os braços como se nada até uma superfície que nunca encontrava.

- Diana! Acalme-se. Acabou! Acabou.

- Merda... Que merda...

- Acalme-se...

- Eu vou embora! Não preciso disso.

- Diana, acalme-se. Vamos conversar sobre o que aconteceu e...

- Não, doutora! Outro dia, na outra sessão. Eu quero ir embora.

Miriam não tinha o hábito de trancar a porta do consultório. Suas palavras não foram o suficiente para manter a porta fechada.

Diana pegou sua mochila e saiu.

Faltava quinze minutos para a próxima consulta. Era um tempo bom para anotar o que foi encontrado.

A paciente carregava objetos invisíveis, e ela tinha noção de quão nociva era. E por isso ela tinha medo de ficar sozinha.

Ela sempre fugia para algum lugar que não lhe houvesse referência ao passado, ou conexão.

Depois de dois dias aquele horário ficou vago. No próximo mês, um novo funcionário poderia ocupá-lo.

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