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A janela

Foto do escritor: Odilon Júnior
Odilon Júnior
2 de set.
3 min de leitura

Ninguém mais olhava para aquela janela.

E nem por ela.

Era como se toda aquela chuva sem fim inundasse a percepção de toda a cidade – que cada vez mais diminuía.

Lá no centro da cidade existia um prédio solitário, sem uso, abandonado.

E sim, com certeza era o mais alto de todos.

Bem no meio.

E lá no alto, aquela janela aberta, dourada.

Mas ninguém se atrevia entrar no prédio, nem subir as escadas empoeiradas e, tampouco, se permitir olhar pela janela.

“Pare de olhar para janela” – era o que os habitantes diziam.

Mas aquele ser humano ainda carregava uma chama, ele queria olhar. Afinal, tantos livros, tantas teorias, tantos aprendizados... O que seria dele se não tentasse.

Sair do cômodo, da fútil vida fácil.

O jovem adulto caminhou pelas calçadas cinzentas.

Seu brilho não sumia, nem aumentava. Ele apenas mantinha-se em ritmo constante, esbarrando em pessoas cinzentas que o mal encarava.

“Não vá! É suicídio”. – ordenavam com ignorância.

Mas o medo não prendia o jovem no lugar.

Ele precisava ir.

E, a cada passo mais perto, mais pessoas pareciam surgir para impedir. Alguns até vendados por fitas grossas e mirando a visão para aquelas coisas luminosas em suas mãos.

A chuva era mais forte a cada passo.

E o som – aquele ruído e rosnado que vinham do prédio – gelava até a alma.

Os passos diminuíam, mas não paravam.

Tremiam, mas não caíam.

Nem toda a água que caía seria capaz de apagar a chama da vontade.

A porta estava aberta, era só entrar.

Mas ninguém se aproximava dos trezes degraus que levavam ao prédio.

As pessoas passavam ali, murmurando lamentos enquanto o jovem subia cada degrau.

O prédio estava empoeirado, não havia marcas de passos ali dentro. Nem pegadas molhadas, nem luz.

Era escuro, e os ruídos eram altos.

O jovem precisava subir, de alguma forma, e chegar ao topo.

Mas por onde?

Talvez devesse esperar o dia amanhecer para que a luz dourada inundasse o interior.

Mas se bem que o dia nunca foi tão claro.

Sempre nublado, como um mente perdida em fragmentos de falsas notícias.

O ruído permanecia imóvel, seu rosnado apenas rebatia entre as paredes.

Talvez lá houvesse passagem, e aquilo – seja lá o que for - a protegesse.

Um passo tateando as paredes com texturas variadas.

E o ruído ficava mais alto.

Outro passo procurando alguma porta para atravessar.

E o rosnado diminuía.

A parede tinha formas diferentes, e canos com furos variados.

Uma luz avermelhada dançava fracamente em um canto.

O ruído permanecia imóvel.

A luz ficava mais forte a cada passo pelo corredor empoeirado.

Lá estava uma sala circular, com escada em espiral até o topo.

Um lampião com chama vermelha pendurado no início da escada.

No centro da sala havia uma máquina estranha que soprava forte um vento fresco que percorria os corredores por entre os tubos.

O jovem sorriu e subiu as escadas.

Eram infinitos degraus, mas ele permanecia firme em sua caminhada. Seguia firme, sendo iluminado por diversos lampiões que iam desde o vermelho, atravessando o amarelo, o azul e chegavam no violeta.

Deixando tudo para trás, ele subiu.

E, por fim, se debruçou sobre a janela, admirando, talvez pela primeira vez, o nascer de um sol dourado.

As nuvens de chuvas não alcançavam o topo. Pareciam ser uma cachoeira, mas não eram um bloqueio.

O sol era tão vivo quanto os pensamentos do jovem.

Não era possível ver os moradores dali. Talvez eles soubessem que para subir, teriam que deixar aquilo para trás, aquela vida amordaçada no passado, inundada por sentimentos não confrontadas.

Ao olhar para trás, do outro lado da escada, o jovem adulto viu uma biblioteca.

Ele sorriu novamente.

A luz alcançaria seu conhecimento, ou vice-versa.


---------


Tema: Uma coisa que todos aprenderam a ignorar.

Frase inicial: Ninguém mais olhava para aquela janela.

Par de palavras: fita - chuva

Mini-cenário: Uma pequena cidade durante uma noite de chuva. - No centro existe um prédio antigo, atualmente vazio, que já teve alguma função importante para a cidade.

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