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Memórias desenterradas.

  • Foto do escritor: Odilon Júnior
    Odilon Júnior
  • há 1 dia
  • 2 min de leitura

Naquela manhã, encontrei uma coisa que tinha certeza de ter enterrado muitos anos antes.

A nostalgia me inundou por completo a ponto de escapar por meus olhos. Eu aproveitei aquele tempo para descansar de tantos passos dados.

Eu não esperava encontrar aquilo em minha oficina abandonada, onde passei tanto tempo da minha vida.

Tantas ferramentas enferrujadas, um espelho quebrado, mesas empoeiradas, objetos parados, planos roídos pelas traças.

Eu me perguntei o que mais eu encontraria ali.

O porão estava fechado.

A janela estava emperrada, como sempre esteve.

Não entrava luz naquele lugar, o vento mal conseguia uma brecha para entrar e dançar.

A nostalgia cedeu, e me veio a lembrança do meu último dia na oficina.

Aquela coisa não estava ali antes, pois não foi lá que eu a enterrei.

Ela foi colocada ali para que eu a achasse...

Achei estranho como o clima havia mudado, estava tudo frio e o espaço menor.

Aquela coisa estava ali, para mim.

Minha nuca conseguia sentir um par de olhos me observando do lado de fora da oficina.

Eu mal havia chegado, já queria fugir, mas queria entender.

Talvez eu devesse investigar o porão. Retirar aquelas caixas dos lugares, mexer nas memórias e colocar somente o que realmente preciso na bagagem.

Vai anoitecer logo. Fiquei tempo demais imerso naquelas lembranças.

Por sorte trouxe uma lamparina com a bateria cheia.

Confesso que achei aquela porta mais pesada do que deveria. Tão pesada quanto o ar parado naquele cômodo inferior.

Tantas caixas, tantas lembranças.

Uma luz amarela iluminando fracamente as prateleiras.

A poeira era um manto tão grosso tentando encobrir o passado.

Passei algum tempo ali. Nem tudo precisava ser levado. Algumas coisas traziam sentimentos singelos, mas não mereciam me acompanhar na viagem.

Talvez eu só não quisesse subir e ver aquela velha lembrança desenterrada de novo. Ou eu não queria descobrir o que realmente eram os olhos do lado de fora.

Mas eu não queria ficar ali. Isso eu tinha certeza.

Pouco me importava o que ficaria para trás, ou quem.

Eu precisava seguir adiante. Sem ilusões, sem amarras.

Eu subi as escadas em passos rápidos.

O alívio escorreu pelo rosto.

Tirei a lamparina da minha mochila.

Olhei uma última vez para o que desenterrei.

Aquela caixa ficaria ali. O que estava lá dentro já não era mais meu tesouro. Não queimei nem apaguei o capítulo ao qual ela pertenceu, mas deixei-a no seu devido lugar: junto às lembranças, não na bagagem.

Eu decidi o que carregar nessa jornada.

E saí pela grande porta da oficina.

Já estava de noite.

O céu estava lindo e estrelado.

Havia olhos por ali sim.

Olhos que julgavam.

A partir dali eu decidi caminhar, apreciar e viver.

 

---------


Tema: Há coisas dentro de nós que aprendem a viver sem nós.

Frase inicial: Naquela manhã, encontrei uma coisa que tinha certeza de ter enterrado muitos anos antes.

Par de palavras: espelho - ferramenta 

Mini-cenário: Uma antiga oficina abandonada, nos fundos de uma casa que está sendo demolida. Há ferramentas enferrujadas, uma bancada de madeira, um pequeno porão e uma única janela que não abre.

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