O senhor das passagens
- Odilon Júnior
- há 3 dias
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Todas as manhãs, às sete horas, alguém tocava a campainha da casa.
A chave ainda estava no porta, mas ninguém ousava girá-la. Não era respeitoso entrar em uma casa sem ser convidado.
Aquele céu cinza era tão reconfortante quando uma xícara de café quente. Era inverno, estava frio.
Outra vez o carteiro tocou a campainha da casa. Seu Alberto não atendia. Mas ele estava, todos os dias, dentro daquele guichê minúsculo, vendendo as passagens para o embarque no novo trem.
Ninguém o via em outro lugar.
Na verdade, ninguém o via.
Era só o “Bom dia, seu Alberto. Como vai?”, “Boa tarde!”, “Boa noite! E bom descanso.”, e ele sempre respondia cordialmente, com aquele voz cansada que se arrastava pelas arestas do buraco por ele recolhia o dinheiro e deixava a passagem.
“Boa viagem!”, “Bom trabalho.”, “Durma bem.”.
E mais uma vez o carteiro deixou a encomenda na varanda da casa e a carta na caixa de correio. Não era costume, mas todos se conheciam naquele pequeno vilarejo.
Outro dia às sete da manhã, o carteiro estava lá tocando a campainha. Havia uma carta que ele não poderia simplesmente deixar ali, precisa de uma assinatura no ato da entrega. Tinha que ser entregue em mãos.
- Tem mais de três dias que seu Alberto saiu de manhã, ainda de pijama, e eu não o vi mais. – disse um menino, estacionando sua bicicleta vermelha próximo ao carteiro.
- Você não o viu mais?
- Sim! Ele sempre volta do trabalho no mesmo horário que volto da escola.
- Isso é estranho...
- Minha mãe acha que ele está dormindo no trabalho dele.
- Então terei que ir até lá entregar isso. Eu me esqueci completamente de que ele foi contratado para trabalhar na nova estação ferroviária.
O menino deu de ombros. Já não queria conversar, precisava pedalar até a escola para não se atrasar.
Ronaldo, o carteiro, montou em sua bicicleta amarela e pedalou pela rua, entregando cartas e encomendas.
Em um vilarejo plano como aquele, era tranquilo trabalhar assim. Mas os novos e antigos trilhos de trem pela cidade eram sempre um empecilho.
- Boa tarde, seu Alberto. Preciso lhe entregar uma correspondência e preciso que assine esse documento. – Ronaldo tentou posicionar o papel no painel onde o atendente podia enxergar as pessoas.
- Você vai embarcar? Coloque o valor na passagem no lugar indicado. – respondeu lentamente.
- Não, seu Alberto! Sinto por incomodá-lo no trabalho, mas preciso entregar essa correspondência.
- Tudo bem! Para onde você vai?
- Seu Alberto, pode abrir a porta para que assinar esse documento...
- Desculpe! – interrompeu com uma voz mais tempestuosa. – Se puder aguardar na lateral. Há mais pessoas querendo embarcar.
- Seu Alberto, por favor. Essa correspondência é importante e tem prazo de entrega...
- Boa tarde. Qual o seu destino? – disse o senhor em outra cabine, às costas do carteiro.
Ronaldo sentiu que sua mão tremia involuntariamente enquanto a correspondência caía no chão.
Uma senhora respondeu a voz no outro guichê, depositou o dinheiro e recebeu a passagem.
Durante mais alguns minutos, o jovem carteiro ficou parado, esperando o fim do turno do destinatário. A carta em sua mão informava que a correspondência deveria ser entregue até, no máximo, no dia de amanhã.
Seu Alberto sumiu.
Outros atendentes entraram nas cabines e começaram a atender as pessoas. Era horário de pico, muitos passavam por ali.
A chave ainda estava na fechadura quando Ronaldo voltou ao fim do dia. A casa estava quieta, tão silenciosa. As nuvens cinzas já haviam se afastado, abrindo as cortinas do céu para as estrelas brilharem.
O frio era mais forte, mas não tão intenso quando o que percorria o corpo do carteiro.
Ele queria entrar e descobrir o que estava acontecendo com aquele homem, mas a educação que recebeu e as leis daquele lugar não permitiam invasão.
A viatura passou rapidamente, mais rápida que as luzes do giroflex.
Lá estava o menino na bicicleta vermelha, correndo atrás.
- Acharam o corpo de um velho na cabine da antiga estação ferroviária! – gritou.
A porta continuou trancada.
O carteiro também pedalou atrás da viatura.
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Tema: Algo que deveria estar morto continua fazendo seu trabalho.
Frase inicial: Todas as manhãs, às sete horas, alguém tocava a campainha da casa.
Par de palavras: cinzas e chave
Mini-cenário: Uma pequena cidade do interior, onde existe uma antiga estação ferroviária desativada. Os trilhos não são usados há décadas.


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