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O senhor das passagens

Foto do escritor: Odilon Júnior
Odilon Júnior
19 de ago.
3 min de leitura

Todas as manhãs, às sete horas, alguém tocava a campainha da casa.

A chave ainda estava no porta, mas ninguém ousava girá-la. Não era respeitoso entrar em uma casa sem ser convidado.

Aquele céu cinza era tão reconfortante quando uma xícara de café quente. Era inverno, estava frio.

Outra vez o carteiro tocou a campainha da casa. Seu Alberto não atendia. Mas ele estava, todos os dias, dentro daquele guichê minúsculo, vendendo as passagens para o embarque no novo trem.

Ninguém o via em outro lugar.

Na verdade, ninguém o via.

Era só o “Bom dia, seu Alberto. Como vai?”, “Boa tarde!”, “Boa noite! E bom descanso.”, e ele sempre respondia cordialmente, com aquele voz cansada que se arrastava pelas arestas do buraco por ele recolhia o dinheiro e deixava a passagem.

“Boa viagem!”, “Bom trabalho.”, “Durma bem.”.

E mais uma vez o carteiro deixou a encomenda na varanda da casa e a carta na caixa de correio. Não era costume, mas todos se conheciam naquele pequeno vilarejo.

Outro dia às sete da manhã, o carteiro estava lá tocando a campainha. Havia uma carta que ele não poderia simplesmente deixar ali, precisa de uma assinatura no ato da entrega. Tinha que ser entregue em mãos.

- Tem mais de três dias que seu Alberto saiu de manhã, ainda de pijama, e eu não o vi mais. – disse um menino, estacionando sua bicicleta vermelha próximo ao carteiro.

- Você não o viu mais?

- Sim! Ele sempre volta do trabalho no mesmo horário que volto da escola.

- Isso é estranho...

- Minha mãe acha que ele está dormindo no trabalho dele.

- Então terei que ir até lá entregar isso. Eu me esqueci completamente de que ele foi contratado para trabalhar na nova estação ferroviária.

O menino deu de ombros. Já não queria conversar, precisava pedalar até a escola para não se atrasar.

Ronaldo, o carteiro, montou em sua bicicleta amarela e pedalou pela rua, entregando cartas e encomendas.

Em um vilarejo plano como aquele, era tranquilo trabalhar assim. Mas os novos e antigos trilhos de trem pela cidade eram sempre um empecilho.

- Boa tarde, seu Alberto. Preciso lhe entregar uma correspondência e preciso que assine esse documento. – Ronaldo tentou posicionar o papel no painel onde o atendente podia enxergar as pessoas.

- Você vai embarcar? Coloque o valor na passagem no lugar indicado. – respondeu lentamente.

- Não, seu Alberto! Sinto por incomodá-lo no trabalho, mas preciso entregar essa correspondência.

- Tudo bem! Para onde você vai?

- Seu Alberto, pode abrir a porta para que assinar esse documento...

- Desculpe! – interrompeu com uma voz mais tempestuosa. – Se puder aguardar na lateral. Há mais pessoas querendo embarcar.

- Seu Alberto, por favor. Essa correspondência é importante e tem prazo de entrega...

- Boa tarde. Qual o seu destino? – disse o senhor em outra cabine, às costas do carteiro.

Ronaldo sentiu que sua mão tremia involuntariamente enquanto a correspondência caía no chão.

Uma senhora respondeu a voz no outro guichê, depositou o dinheiro e recebeu a passagem.

Durante mais alguns minutos, o jovem carteiro ficou parado, esperando o fim do turno do destinatário. A carta em sua mão informava que a correspondência deveria ser entregue até, no máximo, no dia de amanhã.

Seu Alberto sumiu.

Outros atendentes entraram nas cabines e começaram a atender as pessoas. Era horário de pico, muitos passavam por ali.

A chave ainda estava na fechadura quando Ronaldo voltou ao fim do dia. A casa estava quieta, tão silenciosa. As nuvens cinzas já haviam se afastado, abrindo as cortinas do céu para as estrelas brilharem.

O frio era mais forte, mas não tão intenso quando o que percorria o corpo do carteiro.

Ele queria entrar e descobrir o que estava acontecendo com aquele homem, mas a educação que recebeu e as leis daquele lugar não permitiam invasão.

A viatura passou rapidamente, mais rápida que as luzes do giroflex.

Lá estava o menino na bicicleta vermelha, correndo atrás.

- Acharam o corpo de um velho na cabine da antiga estação ferroviária! – gritou.

A porta continuou trancada.

O carteiro também pedalou atrás da viatura.


---------


Tema: Algo que deveria estar morto continua fazendo seu trabalho.

Frase inicial: Todas as manhãs, às sete horas, alguém tocava a campainha da casa.

Par de palavras: cinzas e chave 

Mini-cenário: Uma pequena cidade do interior, onde existe uma antiga estação ferroviária desativada. Os trilhos não são usados há décadas.

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