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O afogamento de Emily

  • Foto do escritor: Odilon Júnior
    Odilon Júnior
  • há 3 dias
  • 3 min de leitura

- Você tem que aprender a nadar. – insistia seu pai. – Sua mãe foi a melhor nadadora do mundo. Esse dom está em seu sangue.

- Eu não quero. – relutava  jovem Emily, com seus treze anos.

- Não é uma questão de querer. Já está em seu sangue. Você precisa ser a melhor.

- Pai...

- Você vai treinar até não conseguir mais. Eu volto para te buscar as vinte e duas horas.

- Pai... eu não vou nadar isso tudo.

- Vai sim!

Seu pai saiu, deixando-a sozinha na piscina. Todas as outras crianças já haviam ido para casa. Mas por conta do desempenho de Emily, a jovem não conseguiu sair desse castigo.

A piscina estava gelada, as nuvens avermelhadas do fim da tarde, o vento sopra lento, tocando cada célula do corpo da garota, como se quisesse empurrá-la para fora do local de treino, sem fazer alarde... tudo em silêncio. Emily olhava para aquela coisa cristalina e pura que inundava a piscina, mas sem admirar... sentia uma leve repulsa sobre aquilo, mas não se lembrava do porquê.

As lagrimas de Emily encontraram a água, uma a uma.

Ela sabia que se não tentasse mais algumas vezes, poderia ser pior para ela. Seu pai não aceitaria tal desfecho.

Emily sacou o cronômetro e o apertou, deixou-o no chão e saltou.

Seu salto provocou um barulho alto que ecoou pelo vazio do lugar. E ela mergulhou fundo, fechando bem os olhos, até emergir e bater os braços, um a um, puxando forte com as mãos e movendo os pés como se fossem duas pás que empurravam seu corpo pela água. Ela nadou, nadou rápido até a outra ponta, girou o corpo, empurrou-o com os pés e partiu retornando para o ponto inicial.

Algo estava errado, o seu medo estava maior. Ela sentiu que água a queria lá dentro, lá no fundo, imóvel.

Descontrolada, Emily começou a engolir água. Não conseguia se concentrar, brandia os braços descoordenadamente, chutava a água em vez de nadar... Ela estava aflita, mas a voz do seu pai ainda ecoava em sua mente. “Você vai treinar até não conseguir mais”.

Emily sentiu seus pés afundarem, mesmo tentando forçá-los a bater. Algo a agarrava... a água estava viva. Seu coração quis sair pela boca, mas ela não deixaria, estava com a boca fortemente fechada, segurando o pouco ar que restava. Ela se debateu, buscou voltar a superfície. Mas água a abraçava fortemente, algo gelado e estranho, algo que apenas a abraçava.

A piscina estava cada vez mais funda que o normal e uma mancha vermelha subia a superfície. Os olhos de Emily estavam escurecendo... o coração ainda palpitava lentamente, o ar que ela segurou já lhe havia escapado.

- Você precisa nadar... – sussurrou a água, mas Emily estava imóvel.

Um som abafado surgiu pela água. Algo havia imergido e se aproximava de Emily. A jovem não percebeu, mas sentiu algo ligeiramente quente lhe agarrar e puxá-la para fora.

Um sopro passou pela sua garganta.

Alguns empurrões em seu peito foram desferidos.

Outro sopro quente lhe preencheu e finalmente ela regurgitou toda a água para fora.

Tossindo e ouvindo uma voz calma e aveluda pedindo calma.

- Eu estou aqui, meu amor. Calma, calma... foi só um susto. Mamãe está aqui.

- Mãe... cof cof... papai disse que eu estava de castigo por não ter nadado rápido...

- Filha... acalme-se. Tá bom!? – a mãe chorava levemente, misturando suas lágrimas a água que descia de pescoço enquanto abraçava forte a sua filha. – Você só teve uma lembrança dolorosa do dia do acidente... Eu sinto muito por não ter chegado hoje no horário combinado...

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Esse conto foi criado como parte do exercício de escrita criativa no curso de "Introdução à escrita de histórias de terror".

Objetivo: Escolher uma situação real que mais te assusta. Falar sobre sua obsessão e pensar em como isso vai se transformar em um personagem ou uma história de terror.

Situação: Afogamento.

Imaginei a cena horrível de alguém não conseguir respirar mais por ficar preso. Criei uma narrativa onde a criança revive um acidente que tirou a vida de seu pai abusivo de maneira inconsciente. Coloquei um desfecho mais acolhedor no final para mostrar que mesmo após situações ruins e recaídas emocionais ainda existe a chance de vencermos esses traumas.

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