Legado
- Odilon Júnior
- há 5 dias
- 4 min de leitura
Este conto foi escrito como um exercício de escrita criativa. O desafio consistia em desenvolver uma história utilizando os seguintes parâmetros:
Tema: Uma despedida necessária.
Frase inicial: "Eu sabia que aquela seria a última vez que pisaria naquele lugar."
Par de palavras (ambas devem aparecer no texto): espelho e semente.
Mini-cenário: Uma estufa de plantas abandonada no topo de uma colina.
Eu sabia que aquela seria a última vez que pisaria naquele lugar. Achei que seria fácil recomeçar aqui, organizar tudo, transformar esse lugar em algo novo... Mas não meu coração insiste em ficar do lado de fora.
Eu olho para cada canto e vejo aquela pessoa. Cuidando das plantas, atendendo os clientes, limpando os vidros, conferindo o estoque, sorrindo para mim. É como olhar para o passado vivenciando-o com os sentimentos presentes.
O sol vai se pôr em breve. Era lindo ver isso antigamente, ali da varanda oeste dessa estufa no alto da colina. Eu sei que se eu pisar na varanda meu corpo rapidamente vai se jogar para trás.
O que eu vim fazer aqui? Como pude acreditar que eu seria forte o suficiente para carregar esse legado?
Eu ainda me vejo no grande espelho fixado na entrada. Eu não sou mais o mesmo que frequentava esse lugar... Talvez a luz da lanterna não ajude a desmanchar a escuridão que me abraça.
É tão triste e vazio aqui.
Cheio de segredos que podem ser encontrados se eu mergulhar nesse oceano de sentimentos que inundam cada cômodo.
É tão grande, mas me sinto apertado. Mal consigo andar pelos móveis empoeirados carregados de lembranças.
O estoque de sementes está vazio... tanto quanto meu coração. Não carrego a esperança de reconstruir esse lugar.
Mas eu recebi a chave como herança... Eu ainda me pergunto o porquê?
Meu carro ficou na base da colina, não teve tração para subir essa estrada de terra. Talvez seja melhor eu voltar para a cidade e vender essa propriedade, deve valer algum dinheiro que me ajude a viver até eu arrumar um outro emprego.
O vento está soprando minhas pernas. Deve ter algo aberto – uma janela ou algum buraco na parede. Melhor investigar e fechar para que nenhum animal entre aqui. Ainda respeito esse lugar.
Caminhei até um cômodo cheio de caixas e vi todas as janelas trancadas. Mas o vento surgia dali, soprando uma chama que ardia meu peito e fazia meu coração correr no mesmo lugar.
Procurei pelos cantos, olhei o teto. O sol já ia se por.
Mas eu precisava saciar aquele monstrinho ansioso.
Mesmo sentindo olhos perto da minha nuca, continuei vasculhando.
Um alçapão tão estranho quanto a chave que recebi estava aberto embaixo de uma mesa pesada. Precisei de toda minha força para tirá-la do lugar.
Como alguém como aquela pessoa conseguia mover isso? Não sei...
Eu desci as escadas. Talvez um ou dois andares por uma escada de parede de ferro tão gelado quanto a solidão que me rodeava.
Havia algumas caixas empilhadas no chão e uma grande porta ainda mais estranha que a chave – retorcida, com dentes, uma corrente e um entalhe de um olho em um dos dentes.
De certo modo, eu sentia que a porta me abraçava e me envolvia em um calor aconchegante, e cada passo trêmulo que eu me aproximava, mais meu corpo e minha mente se contrastavam: ora querendo subir as escadas em um salto, ora querendo olhar pelo buraco da fechadura antes de abrir a porta.
O vento soprou-me para o chão... a porta estava respirando.
Um bilhete estava fixado a parede, próximo a fechadura.
“Meu querido herdeiro. Que bom que é você!
Passei anos tentando decidir quem herdaria meu império que acabei esquecendo que eu envelheceria. Sei o quanto fui orgulhoso e acabei afastando funcionários e pessoas daqui. Impregnei minha solidão em cada canto dessa estufa.
Espero que os materiais sejam realmente os melhores e ela dure até o dia que você encontrar esse bilhete e continue firme por longos e longos anos.
Em cada caixa dessas aqui embaixo há ouro e pedras preciosas. É mais que suficiente para você voltar aos estudos e reconstruir esse lugar.
Dos meus parentes, você é o único que posso confiar tamanha responsabilidade, porque conheço suas forças e fraquezas.
Eu lhe peço que, se algum dia quiser abrir a porta, faça isso apenas uma vez e não traga nada de lá. O preço é alto e consome a alma. Há riqueza em abundância e infinita naquele lugar, guardadas por seres que não nos querem lá. É um lugar sombrio e perigoso...
Usando a minha sanidade, enquanto ela ainda percorria meu sangue, eu coletei riquezas para deixar como herança... talvez a culpa por ter afastado tantos de minha vida tenha sido o real motivo, buscando redenção... Mas é tarde para mim. A insanidade está chegando, junto com a semente que aquele lugar deixou em mim.
Você sabe quem é o advogado da família, certo? Procure-o após assinar o testamento que está na mesa.
Espero que você tenha uma boa vida.”


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