Carmem, a velha
- Odilon Júnior
- 2 de jun.
- 2 min de leitura
Este conto foi escrito como um exercício de escrita criativa. O desafio consistia em desenvolver uma história utilizando os seguintes parâmetros:
Tema: Vila onde ninguém envelhece, mas tudo tem prazo de validade.
Frase inicial: “O calendário da casa assobiou o meu nome na manhã em que o vizinho apagou.”
Par de palavras: Ritual / Pilha de documentos.
Mini-cenário: Um lugar onde você pode trocar um sonho por uma memória — mas existem tarifas e taxas.
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O calendário da casa assobiou o meu nome na manhã em que o vizinho apagou... Ninguém esperava isso. Ele simplesmente decidiu abandonar sua juventude usando um arma contra sua testa.
Novamente o calendário chamou meu nome. A tecnologia nos ajuda muito a viver, mas às vezes ela incomoda. Preciso me levantar e trocar as peças do meu computador central... tudo aqui tem prazo de validade e nada pode ser usado após isso... Ordens dela.
Hoje eu preciso organizar aquela pilha de documentos extras no arquivo da vila. Conferir se estão documentados online ou se precisam ser digitalizados com versão editável... Essa tecnologia toda e ainda passamos por tantos serviços manuais.
De pé, fiz meu almoço usando os alimentos que estão perto da data de vencimento... Não posso ser multado de novo. Ela está brava comigo... cometi apenas um erro durante todos esses anos. Já tenho quase sessentas anos, mas minha juventude de dezoito anos permanece no meu corpo. Assim como em muito outros. Mas o preço é por isso é pesado. Viver toda a vida aqui nessa vila, sem poder sair... rodeados por essa presença sobrenatural que nos vigia. A gente não vê, mas os olhos estão ali.
Já tive pesadelos com isso, com Ela. Por sorte a gente pode trocar um sonho por uma memória e, na realidade, eu paguei caro por isso, mas não lembro dos pesadelos em si, apenas que já os tive.
Durante toda a tarde revisei os documentos, mas cerca de metade de pilha precisou ser digitalizada. E hoje eu estou sozinho aqui. O restante da população está lá, no grande salão de pedra...
Eu nunca fui lá. Desde que cheguei à vila, aos dezoito anos, nunca fui ao tal salão nem nunca desbravei além da névoa que cerca esse lugar.
Dizem que Ela faz rituais para a vila, para que sempre sejamos jovens.
Espera... o que esse documento?
“Relato de desaparecimentos – Por Bobby Winchester”
Esse é aquele policial que fazia a vigia no portão da vila... Ele também desapareceu...
Ah, os olhos... eles estão por aqui...
Não! Acho que não! Ela está ocupada. O tal Ritual...
“As vítimas desapareceram durante o Ritual...
Mas suas famílias só sentiram falta após alguns dias...”
Como ele sabe que foi durante o ritual?
“Ela, Carmem não fala sobre isso.”
Carmem? Quem é Carmem?
“Mais desaparecimentos, ao todo somam-se vinte e oito em catorze meses...”
“A velha não quer falar, maldita.”
“Esses malditos olhos estão por toda parte... eu posso sentir Ela me observando”.
“Se eu continuar a investigar, Ela vai acabar comigo... ou algum dos inertes”.
Isso está me assustando...
Por que ainda estou morando nessa vila?
Os olhos estão aqui... preciso trabalhar... É horrível trabalhar sobre constante vigilância.
Talvez eu pegue a arma da vizinho... ainda está no chão.



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