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O sapo rei

  • Foto do escritor: Odilon Júnior
    Odilon Júnior
  • há 14 minutos
  • 4 min de leitura
O sapo rei

Poema:

Um garoto brincava sozinho

Do lado de fora de sua casa

Enquanto a chuva caía fino

Pulando e pulando em uma poça rasa.

 

Não era noite, mas o céu se escondia

Já era quase a hora de parar.

De noite assim, sua mãe dizia

Coisas estranhas vem para assustar.

 

De banho tomado, barriga enchendo

O pequeno garoto sentado estava

Observa a porta e a chuva no terreiro

Sentindo na pele algo que incomodava.

 

Ele dormiu sem ver as horas

Do nada ouviu um batido na porta

Levantou-se corajoso e foi até a cozinha

Destrancou a tramela e ficou sem volta.

 

Estava paralisado, seu corpo não se mexia

Ali estava um bicho mais alto que ele

Um sapo gigante com uma coroa na cabeça

Olhando bem fundo na alma dele

 

O menino caiu, enfim se movendo

Correu para o quarto procurando seus pais

O vazio se estendeu por todo o cômodo

E a saída do quarto já não existia mais.

 

Pois sapo astuto cercou o menino

Parou-se na porta como um cadeado

Encarou a criança como se fosse engoli-lo.

E parado ficou, sem se mover para algum lado.

 

O menino chorou, gritou e sofreu

Seu corpo tremia, a ponto de se esquentar

Em meio as pernas um líquido escorreu

Mas o jovem não soube o que pensar.

 

O sapo parado ficou,

Da porta não se moveu.

O menino do nada inspirou

E em coragem correu

 

Correu para seu quarto e a porta fechou

Não havia ali como o sapo entrar.

Sentiu-se pelos ombros ser agarrado.

Mas era sua mãe que de um pesadelo o fez acordar.

 

Conto:

Um jovem menino brincava sozinho no lado de fora de sua casa. Ele pulava alegre e chutava a água ondulada de uma poça rasa. Era muito jovem para entender a chuva fina, só sabia que ela caía do céu cinzento, como o daquele dia.

Sua mãe já lhe havia dito para entrar para casa e se aquecer, mas a diversão não o deixava. Ele estava curioso quanto a água. Pensava: “será que se eu chutar ela bem alto ela vai parar nas nuvens?”.

Outra vez sua mãe gritou “Vem para dentro agora! Está ficando escuro e você pode se assustar com os bichos aí fora”. E nesse momento o pequeno parou de brincar. Percebeu pequenos movimentos coaxando pela rua, sentiu um leve frio na barriga. Suas pequenas pernas o fizeram crer que demoraria horas para entrar em sua casa.

Aquela estranha sensação que ocorreu no corpo do garoto logo se foi. Era só uma criança curiosa e cheia de energia. Um banho quente o fez esquecer o que não compreendeu. E uma boa janta o fazia feliz... mesmo observando a goteira que descia pela varanda, mesmo ouvindo vozes estranhas pela escuridão do terreiro. Vozes que ele não sabia o que diziam, mas os adultos diziam que era apenas um animal.

O sono veio sem demora, e aquela pequena criança em sua cama deitou-se. Estava bem coberto e quentinho, dormia bem, quando um barulho na porta da cozinha surgiu. “Toc-toc-toc”.

O menino levantou-se da cama, caminhou com seus pés descalços naquele chão de gelo e abriu a porta da cozinha.

Seu corpo estremeceu e congelou, como chão que pisava. Estava paralisado olhando nos olhos daquele grande bicho. O som das goteiras parecia que queriam o hipnotizar. E o pequeno tremia, e não era de frio.

Seu coração pulou, tentou sair pela boca e foi graças a isso que aquele menino caiu no chão, movendo-se. Ele correu para a sala, e o monstro o seguiu, carregando em sua cabeça uma grande coroa dourada. O menino correu, e o monstro o seguiu novamente, parando sempre em uma porta e olhando para a criança.

Os cômodos estavam cada vez menores. O barulho da chuva continuava surgindo do telhado, das plantas, das janelas trancadas, da coroa que molhava a casa.

O menino correu mais uma vez, chegando ao quarto dos pais. Mas eles não estava ali. Tudo estava vazio, cama arrumada, janela trancada. E o grande monstro mais uma vez o seguiu. Era um sapo gigante, mais alto que o menino, e naquele momento parecia ser um cadeado, trancando a porta.

A criança chorou, sentiu suas pernas se aquecerem rapidamente, algo escorria dele. Seus gritos já não saíam mais... Seus olhos encaravam uma grande boca que era capaz de engoli-lo de uma vez só. Uma boca semiaberta, que nada falava.

O sapo rei ficou parado na porta, como se esperasse algo. Mesmo quando o menino tentou subir na janela para destrancá-la, gritando, o sapo não se moveu. Apenas observou.

Sem saber o porquê o menino simplesmente correu, não olhou mais para o sapo, apenas passou ao seu lado e correu para seu quarto, trancando a porta. Sabia que não haveria como aquele bicho entrar ali, estava protegido.

Mas ele se estremeceu todo ao sentir-se ser agarrado pelos ombros. Ele não via o que era, só sentia algo quente o segurar. Mesmo girando, mesmo se escondendo embaixo dos cobertos, aquela coisa não saía dele.

- Filho!

O garoto acordou. Sua mãe o abraçava fortemente, tentando acalmá-lo.

Foi só um pesadelo. Mas para o garoto aquilo tudo parecia real, tão real quanto o xixi que estava na cama.

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Esse poema e esse conto, de mesmo título, foram criados como exercício final do curso de “Introdução à escrita do terror”.  O objetivo era pensar em um medo/pesadelo próprio e escrever um conto. No primeiro momento, o que me veio à cabeça foram versos, então escrevi primeiro o poema. Em continuidade, seguindo a premissa inicial, transformei o poema em conto.

Esse tipo de exercício é ótimo para a criatividade. Pensar em um medo ou um pesadelo que te deixou mal, tentar lembrar os sentimentos e detalhes – se possível. – e transformá-lo em uma história, um conto curto.

O que achou?


 
 
 

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