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A história nunca contada dos meus avôs

  • Foto do escritor: Odilon Júnior
    Odilon Júnior
  • há 1 hora
  • 4 min de leitura

Este conto foi escrito como um exercício de escrita criativa. O desafio consistia em desenvolver uma história utilizando os seguintes parâmetros:

Tema:O preço de conhecer uma verdade.

Frase inicial:"Quando abri a terceira gaveta, encontrei algo que não deveria existir."

Par de palavras (ambas devem aparecer no texto): farol e cicatriz.

Mini-cenário: Uma estação ferroviária abandonada que não aparece em nenhum mapa.


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Quando abri a terceira gaveta, encontrei algo que não deveria existir.

Fiquei curioso e pensativo.

- Por que meus avôs guardaram aquilo naquela gaveta? A gaveta que os dois usavam...

Era como diziam.

Minha mãe estava enlutada, talvez um pouco conformada, mas, como filha única, estava muito abalada. Eu não disse nada sobre o que encontrei. Esperei a noite cair e observei a caixa que encontrei.

Com certeza aquela textura era de pele. Talvez couro.

A chave estava junta a caixa, mas eu lutava contra a vontade de abri-la.

Fiquei observando aquela caixa, aquela textura escura, as linhas da costura nas arestas. Não havia cheiro, mas havia símbolos redondos em baixo-relevo. E, devo admitir que, eu não sabia e nem sei lê-los ainda.

Não vi a madrugada se arrastando para o outro lado da montanha, nem tampouco percebi aquela força amarelada ir iluminando a relva que rodeava a casa. O sono parecia estar dentro da caixa que permaneceu lacrada.

Minha mãe me chamou. Meu pai já havia chegado para levá-la para casa. Ela me pediu para ter cuidado durante esses dias que eu ficaria sozinho ali – escolha minha na época. Eu gostava do vilarejo que os meus avôs viviam e queria um tempo a sós, principalmente depois de toda a turbulência que vivi com emprego e estudo.

Minha expectativa era que ali começasse meu ano sabático.

Eles partiram... Eu devia ter ido com eles.

Na tarde daquele dia, o ar dentro da casa parecia me sufocar. Meu corpo apenas respirava bem quando eu estava perto da caixa. Eu sabia que ele não deveria estar ali. Era algo com uma energia diferente do resto do mundo que já conheci.

Eu a abri...

E até hoje eu pago o preço por isso.

Carrego a cicatriz daquela escolha aonde ninguém consegue chegar...

Havia uma chave dentro, com uma bússola em sua extremidade.

Eu segui as orientações da bússola.

Meu coração caminhava à minha frente. Meus pulmões se enxiam de ar como se quisesse correr até o ponto indicado.

Jovem! Tão inconsequente.

Saí da casa. Rapidamente a bússola apontou outra direção. Segui a orientação em cada rua, virando em cada esquina... sempre apontando para uma nova estrada ou caminho.

Nunca no meio do mato.

Nunca por dentro de um rio.

Nunca pelo cemitério.

sempre por um caminho.

Eu caminhei, por horas.

Cheguei em uma caverna.

Por sorte, carregava o meu celular e ativei a lanterna.

Aquelas pedras cinzas já me avisaram do que era aquele lugar, mas eu não prestei atenção. Continuei seguindo bússola, que me guiava como um farol pela noite perigosa no oceano.

Encontrei alguns trilhos

Eles seguiam na mesma direção apontada pela agulha.

Trilhos de madeira e ferro sobre um chão tão cinza quanto as enormes paredes de pedra de um túnel largo e mergulhado pela escuridão.

Eu segui, apenas caminhando sem pensar.

Talvez empolgado com a descoberta.

Havia um vagão antigo.

Suas ferragens eram de um preto profundo. As paredes eram feitas de uma madeira avermelhada e escura; não era pintada. As rodas eram grandes. Algo como uma locomotiva pequena esperando pacientemente para sair daquela estação solitária e afogada nas sombras.

Em um banco havia um senhor sentado, lendo o jornal que cobria completamente seu rosto.

A agulha da bússola apontada para a locomotiva.

Eu ignorei o senhor.

Entrei na cabine.

Havia uma alavanca e um compartimento para a chave.

Eu acionei a locomotiva.

O senhor se levantou e caminhou para dentro do vagão, ainda com o rosto escondido pelo jornal.

Eu tentei falar com ele, mas minha voz parecia atravessá-lo.

Puxei a alavanca e a locomotiva seguiu os trilhos, em uma velocidade confortável, adentrando-se no corredor escuro cada vez mais.

As paredes eram marcadas de inúmeros símbolos redondos tal qual a caixa que guardava a chave. Eu conseguia ver os entalhes rapidamente, mesmo com o fraco farol que guiava meu caminho que parecia circular algo grandioso.

A locomotiva parou em outra estação.

Eu me afundei dentro da cabine.

Tenho certeza do que vi ali, naquela semiescuridão daquela estação.

O homem desembarcou ainda com seu jornal escondendo o rosto e seguiu rumo aqueles grandes olhos.

Eu me senti como um bebê dentro do útero de sua mãe.

O farol da locomotiva apagou por algum tempo, não sei dizer quanto.

Senti tremores de passos pesados ao lado da locomotiva. Ouvi ruídos que não sei descrever.

Então aquele homem bateu no vidro e disse que estava na hora de voltar.

Com muito custo, girei a chave.

A locomotiva ligou.

Acionei a alavanca e me pus de pé, observando aqueles entalhes pela parede cinza e os trilhos que surgiam de dentro da escuridão.

De volta a primeira estação, o homem desceu e sentou-se novamente no mesmo banco empoeirado, exatamente no mesmo lugar.

Saí da cabine, emudecido.

Quando estava indo embora ele disse:

- Obrigado pela viagem. Já estava a muito tempo aguardando outro condutor... Uma pena aquele casal não ter vindo mais vezes... Aproxime-se.

Ele insistiu mais algumas vezes ao perceber que meu corpo parecia uma estátua tão cinza quanto as paredes do local.

Aproximei-me.

Ele levou sua mão direita, coberta por uma luva de couro escuro, para dentro do paletó e retirou um saco marrom.

O jornal cedeu a força da gravidade e caiu nesse instante.

O homem não tinha rosto.

Era apenas uma caveira.

Estranhamente, eu sentia que ele sorria para mim...

- Não se assuste. Pegue seu pagamento e venha mais vezes... Preciso fazer meu trabalho aqui nesse planeta. Agora você precisa fazer o seu... em segredo. Caso contrário, as consequências podem ser mortais. Mas não sou eu que governo esse sistema. É a própria caixa. E creio eu que você leu as instruções que estão na parte interna... certo?

Respondi que não... E fiz bem em não mentir.

Ele lamentou, entregou-me o saco cheio de moedas de ouro e pedras preciosas e se despediu.

Senti-me estranho na hora.

Caminhei cambaleando pelos túneis sem nem sequer ligar a lanterna.

Não sei como cheguei em casa.

Nem como fui parar na cama.

Mas o saco de moedas e a chave estavam lá, ao lado da cama, junto do meu celular.

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