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Sem fio

Foto do escritor: Odilon Júnior
Odilon Júnior
29 de jul.
1 min de leitura

Minha casa já não era mais segura.

Não, nem as ruas da cidade por onde morei.

Aquelas vozes me perseguiam por todo lado.

No começo era uma semente de incomodo diário. Depois se tornou uma florestas de sussurros e gritos, dramas, manipulação e insistência.

Arranquei os fios daquilo que gritava. Quebrei suas partes.

Mas ainda assim as vozes vinham. Sem fio, por texto, aguardando que as ouvisse.

“É importante!” – diziam.

“Você precisa me ouvir”.

“Imperdível”.

“Se você não me amar eu vou acabar com você”.

“Sua conta foi bloqueada, digite 1”.

Ainda havia um fio que conectava tudo.

Nas ruas, nas casas, em todo lugar. Estava lá, em algum lugar. Levando as vozes até o íntimo do meu ser.

Até o ponto de tentar me amarrar em um só lugar.

As vozes me paralisaram por dias... meu coração já não lidava com tantas emoções.

Meus olhos já não brilhavam sozinhos. Precisavam de plateia... tanto quanto as vozes.

E quando eu levantei a cabeça e olhei para fora daquilo, me assustei!

Quantas pessoas presas em fios, vidrados, permitindo que as vozes gritassem em todo lugar.

Onde estava o silêncio? Aquele silêncio que permite ouvir leve ruído urbano?

Já não tinha mais.

As vozes saíam de bolsos, gritavam de canos de escapamento. Buscavam um jeito de alcançar suas vítimas.

Foi então que um dia eu encontrei o último fio. Ele pôs fim a tudo isso.

Ele só precisou conectar a viga e uma parte de meu corpo.

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