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A fazenda e a capela

  • Foto do escritor: Odilon Júnior
    Odilon Júnior
  • 8 de jul.
  • 3 min de leitura

Ninguém acreditou quando eu disse que a casa continuava esperando por alguém.

E hoje eu retorno, adulto, e encaro aquela casa mais uma vez.

Eu era uma criança quando jurei não retornar, mas minhas escolhas me trouxeram de volta a esse lugar... E eu preciso encarar tudo isso.

Por mais incrível que minha memória seja, eu não me recordo do que está lá dentro... Nem do porquê a pequena capela estar desativada.

Meus avôs cresceram no vilarejo aqui perto e compraram esses terrenos ao redor do lago. Construíram mais que uma fazenda, criaram um legado. Depois ergueram duras capelas... uma no norte e outra no sul do lago. Duas edificações que se embelezavam com a natureza e a paisagem ao redor.

A do norte cedeu e caiu, lembro-me bem desse dia. Dizem que foi o terreno que cedeu e a engoliu por inteiro.

A capela do sul, a favorita de minha avó, permanece de pé. E é a mais próxima da fazenda. Mas está lacrada: janelas bloqueadas por madeiras, portas acorrentadas... Assim como alguns quartos da fazenda.

Meu pai, o primeiro herdeiro, construiu outra casa a alguns quilômetros daqui, onde hoje é a casa e a fazenda principal. Aqui continua de pé, como um retrato vivo da história da família. Um retrato que se arrastou e me assombrou enquanto eu morava fora para estudar.

O sol se levantou cedo hoje, estava radiante. Sua luz amarela banhava as edificações enquanto as sombras se encolhiam. Era uma hora ideal para que eu entrasse na casa atrás de respostas sobre o passado.

Mesmo com a chave da entrada na mão e de frente a porta, a maçaneta se afastava de mim. Minha mão se aproximava lentamente e congelava antes de girá-la.

Ouvi um assobio distante. Longe dali alguém passeava pela mata verde e alegre. Talvez eu quisesse estar lá...

A solidão que habitava a casa me abraçou após o giro da chave. Um cheiro de poeira e de tristeza subia pelas paredes até minhas narinas.

Tudo estava no mesmo lugar: o sofá, as mesas, as cadeiras, os lustres... As portas trancadas... e aquilo... Eu podia sentir seus olhos em minha nuca, seu suspiro arrepiando meus pelos.

O molho estava no porta-chaves... Uma chave para cada quarto. Nenhuma mestre.

Talvez no fim do corredor eu encontrasse respostas sobre meu passado assim como sugerido pela minha terapeuta. Um passado que também se oculta nas sombras, mas me visita em pesadelos estranhos e sem sentido.

Aquele corredor gigante parecia uma caverna sem fim pronto para me engolir. Eu caminhei, esperando ir em direção a saída, mas meus passos lentos me levaram a explorar o local.

O quarto de visita aberto, tudo no mesmo lugar.

O quarto dos meus pais, parado no tempo.

Meu quarto antigo, hoje sem alegrias.

O quarto dos gêmeos, ainda bagunçado.

O quarto dos meus avós... não abre.

Não encontro a chave.

Ouço ruídos pela casa, um ruído que atiça algo dentro de mim. Uma coisa que está no meu peito e faz meu coração pular... Eu voltei para a cozinha. Para junto do porta-chaves preso a parede coberta pelo papel amarelado de ladrilhos em losangos escuros.

A porta de entrada estava fechada... Não lembro de ter feito isso.

O ruído se cessou quando eu senti alguém passando por mim e jogando algo para baixo da mesa da cozinha.

Eu me abaixei para procurar, senti dezenas de passos correndo em disparada para fora da casa.

Achei a chave... a segurei. E tudo se silenciou novamente, exceto os batimentos cardíacos que apertavam meu pescoço.

A casa parecia quieta agora, novamente desocupada.

O corredor já não era tão grande. No chão havia pegadas de passos trêmulos... Os meus passos, e somente os meus.

Eu abri a porta do quarto e da minha mente no mesmo momento.

Vovó ainda estava lá, pendurada no teto e balançando naquela corda que eu vi se amarrar. O quarto todo coberto por símbolos escritos com sangue. Vovô estava amarrado a cadeira, lembro que foi com seu sangue que vovó desenhou tudo aquilo.

Ela me queria até o fim, mas meus pais invadiram o quarto...

Eu não sei o que era o fim daquilo, pois ela se jogou enquanto sorria para mim.

Eu me lembro agora... a capela está cheia de corpos desconhecidos.

Mas eu não sei o porquê vovó fez isso...

 

---------


Tema: Uma promessa feita há muito tempo.

Frase inicial: "Ninguém acreditou quando eu disse que a casa continuava esperando por alguém."

Par de palavras (ambas devem aparecer no texto): relógio e ferrugem (dessa vez eu esqueci, confesso, porque entrei em um estado de fluxo e a história fluiu).

Mini-cenário: Uma pequena capela desativada às margens de um lago.

Desafio extra (opcional):

Até a última página, o leitor não deve conseguir responder:

O protagonista está diante de um fenômeno sobrenatural... ou apenas interpretando a realidade através das próprias emoções?

As duas explicações precisam parecer possíveis.

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1 comentário


apcrsana
08 de jul.

Muito bom! Adorei a leitura 🥰

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