A clareira
- Odilon Júnior
- há 7 horas
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O viajante precisou andar, talvez quilômetros seguindo ao norte, castigado pelo forte calor que invadia aquela clareira.
O barulho continuava dançando pelo oeste. Um barulho lento e estranho.
Ao sul ele sabia o que estava lá, aquele monstro que surgia na ponte Sanátas durante as noites.
Mas o feiticeiro precisava seguir em frente, descobrir onde a floresta das árvores vermelha estava para conseguir a tal raiz que salvaria sua aldeia de uma maldição terrível. Os aldeões estavam ficando doentes, fracos, cheios de bolhas verdes. Já não conseguiam trabalhar, nem tampouco se alimentar direito.
O que parecia ser uma pequena clareira era, na verdade, quilômetros de uma área devastada.
Algo aconteceu ali... Uma luta entre seres poderosos.
O barulho acompanhava o viajante e seu cajado. Seguia pelo oeste, caminhando rumo ao norte. Parecia lento e pesado. O barulho tinha olhos, com certeza, olhos que observavam.
Um a pausa para recarregar as energias, mas os suprimentos estavam acabando. Talvez o feiticeiro teria que se aventurar pela floresta em busca de comida.
Mais algumas horas caminhando pelas árvores devastadas. Tantas marcas de garras e destroços.
O feiticeiro observava bem o entorno. Algo grande foi arremessado contra as árvores, rochas foram jogadas e troncos foram cortados ferozmente.
Não havia sinal de poeira cósmica – que são fragmentos que sobram de criaturas mortas nesse mundo.
Ou havia um outro aventureiro por ali – capaz de coletar essa poeira -, ou todas as criaturas que estavam lutando ainda estavam vivas... Ou pior, o feiticeiro pensou, haveria uma criatura tão poderosa que era capaz de absorver a poeira cósmica.
O sol já se escondia entre as bordas da clareira. Logo a escuridão tomaria conta de tudo outra vez.
Talvez o céu brilhasse com suas estrelas cintilantes nessa noite, mas o aventureiro precisava de um abrigo. De certa forma, ressentia-se em usar o fogo – tanto para não chamar atenção, quanto não causar um incêndio descontrolado.
Ele encontrou um pequeno buraco dentro do resto de uma árvore grande, suficiente para uma pessoa dormir. Cobriu-o com alguns galhos e troncos e deitou-se.
Seus pés estavam quentes e latejantes. Seu pulmão pedia uma respiração lenta. Seus ouvidos sentia a vibração daquele barulho a oeste, que parecia se aproximar.
Demorou, mas o feiticeiro dormiu, mesmo com frio, mesmo ansioso e temendo o perigo.
De manhã, ao remover os galhos que cobriam sua saída, ele encontrou algumas frutas sobre um tronco.
Não se mexeu quando sentiu uma sombra encobrir suas costas. Um frio mais gelado que a madrugada lhe subiu a espinha. Seus pelos se arrepiaram, mas isso não ameaçaria nada.
A sombra continuava crescendo em sinfonia com barulhos quebradiços e pesados.
O cajado do feiticeiro estava no chão, ele não queria se mover para pegar. Apenas fechou os olhos e aguardou o ataque.
- Não se assuste, humano. – surgiu uma voz grave e estrondosa. – Minha casa foi atacada há alguns dias pelos seres da caverna ao norte... Eles estão mais fortes e eu, continuo sozinho aqui.
O feiticeiro virou-se. A sombra já não gelava sua alma, ela acolhia e cobria o sol nascente.
- Você é um guardião da floresta.
- Sim. Um dos últimos.
- É um enorme prazer conhecer um ser tão magnífico.
- Um ser tão magnífico?
- Sim! Os livros e lendas sempre exaltam os guardiões, e os guardiões das florestas sempre tem um papel importante em toda a história: são eles que restauram a fauna e flora, são eles que mantem a vida em harmonia.
- Fico lisonjeado em saber disso...
- Agradeço o alimento que me trouxe. Confesso que minhas provisões estão no fim e nem estou na metade de minha aventura.
- O que você procura, humano? – o grande guardião, que parecia uma grande árvore robusta, com um máscara ritualística cobrindo parte do seu tronco, tudo em madeira escura e casca grossa, caminhou para o norte.
- Estou atrás da floresta de árvores vermelhas. – respondeu o aventureiro enquanto guardava as frutas em uma capanga. – Preciso da raiz dessas árvores para salva meu povo.
- É perigoso demais para um humano ir sozinho lá. E você já passou a entrada da floresta vermelha.
- Já? Onde fica?
- A floresta vermelha é subterrânea. Os anões construíram uma ponte de pedra com um túnel interno para acessar tal lugar. Mas os perigos da floresta são tão violentos quanto os monstros da caverna ao norte. Entretanto, caro humano, eles só atacam quando se sentem ameaçados.
- A ponte Sanátas...
- Um nome interessante para aquela construção. Sugiro que encontre apoio para se aventurar lá dentro. A entrada para o túnel da ponte fica na vila dos anões próximo a aquela vila dos homens.
- Agradeço muito por sua ajuda e orientação, guardião da floresta. Há algo que posso fazer para te ajudar nessa sua missão antes que eu parta?
- A menos que você consiga fazer chover... Os brotos precisam de terra molhada. Caminhei para o oeste para encontrar os pássaros para me trazerem água, mas eles fugiram durante a luta...
- Não sei feitiços de chuva, mas posso conjurar água.
Mesmo de máscara, o feiticeiro percebeu um sorriso no guardião que estendeu seu braço para o aventureiro escalasse. À medida que o guardião caminhava, o feiticeiro girava seu cajado e conjurava água que descia em respingos sobre o solo.
Ele não percebeu, tanto por estar gastando seu poder mágico quanto por estar apreciando aquele momento de paz, mas o guardião o levou de volta ao sul, próximo a ponte Sanátas.
E um aceno de mão foi a última coisa que eles fizeram antes de caminharem sentido oposto.
Mas o feiticeiro guardou em sua memória um desejo de agradecimento: retornaria um dia para ajudar o guardião na luta contra as criaturas da caverna ao norte.

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