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O guarda-chuva

  • Foto do escritor: Odilon Júnior
    Odilon Júnior
  • 16 de jan.
  • 3 min de leitura
O guarda-chuva, imagem conceitural

Augusta estava em pé na varanda de sua casa, esperando sua neta chegar para levá-la a fisioterapia. Seu guarda-chuva favorito já estava pendurado ao seu braço, como se fosse uma algema levando o detento junto ao oficial. Ela se recusava a sair de casa sem ele.

A velha senhora de setenta e cinco anos sempre carregou esse guarda-chuva para todo lado, desde pequena, e recusava-se a olhar até para a beleza das estrelas. E era incrível como aquele objeto, mesmo antigo, ainda resistia aos ventos, chuvas, calor e desgastes naturais.

Rita chegou, a neta estava atrasada, mais uma vez. Isso causava um certo nervosismo em Augusta. Não gostava de ir sozinha a fisioterapia, sempre doía quando voltava dos exercícios, sempre. Mas no outro dia ela se sentia bem, por isso continuava.

Um certo dia, sem querer, havia chuva torrencial por toda a cidade. O céu parecia querer destruir a terra com tanta água. Água que descia com força, elevando correntezas e subjugando seres pequenos. Rita precisou sair do local da fisioterapia para comprar alguns remédios para sua mãe. Sua avó não a viu pegando o guarda-chuva... Mesmo já tendo sido advertida por vários anos, a neta o pegou e saiu.

Caminhando rápido pela calçada, já com as solas e pés totalmente enxarcados, Rita chegou à farmácia e abaixou o guarda-chuva. Escorou-o na porta e fez suas compras normais. Mas ela estava aflita, sentia um frio gelado subir a espinha e coçar-lhe a nuca, sussurrando como o vento que sopra os pelos dos braços em lugares estranhos.

De volta à rua, a enxurrada já avançava contra os pedestres, inundando as calçadas e quase adentrando as lojas. Uma mulher passou correndo, buscando alcançar o ônibus que queria pegar.

Paf.

Ela trombou-se com Rita que caiu ao chão. O guarda-chuva caiu longe, mas Rita não foi buscá-lo. Estava encarando o céu, atônita. Toda aquela chuva vinha de um só lugar, de um grande olho que procurava por alguma coisa. Rita queria vomitar, estava nauseada. O olho, com seus tentáculos, se segurava em uma espécie de vidro... todo o céu parecia ser feito daquele material... Mas aquele vão era como se fosse um portal, uma fenda dimensional que destruiu o céu. Aqueles tentáculos não estavam apenas segurando, estava tentando entrar.

- Moça... Seu guarda-chuva. - Rita ainda olhava para o céu. - Desse jeito vai molhar até as cartelas de remédio.

- Eu... Eu me perdi em pensamentos.

- Eu te ajudo a levantar.

- Obrigada.

O homem sorriu e continuou seu trajeto. Rita, por sinal, coberta pelo guarda-chuva, recusava-se a olhar para o céu. Caminhou devagar até reencontrar a avó. Augusta logo reconheceu aquele olhar vazio e distante, de alguém que enxergou mais do que devia. Aguardou entrar no carro e puxou assunto com sua neta.

- Achei que eu ia levar isso para o túmulo... mas pelo visto você também está amaldiçoada...

- Você também viu?

- Sim... o céu é só uma ilusão, minha querida... Alguns de nossa família podem enxergar a verdade. Mas olhar demais para aquilo pode ser fatal... O guarda-chuva nos protege... mas também nos amaldiçoa... Ele é seu agora... Você precisa sobreviver.

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Esse conto foi criado como parte do exercício de escrita criativa no curso de "Introdução à escrita de histórias de terror".

O Objetivo do exercício é escolher um objeto, dar um tema associado ao medo e escrever um texto.

Objeto: Guarda-chuva - comprei um recentemente e isso me veio a memória.

Tema/Medo: medo de olhar para o céu e descobrir que tudo é uma ilusão.

Espero que tenha gostado.

2 comentários


pollyanateresa
16 de jan.

Eu amei o guarda-chuva. Confesso, que lembrei-me de um momento de medo. Foi divertido.

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Odilon Júnior
Odilon Júnior
16 de jan.
Respondendo a

Já me conta esse momento de medo que posso adaptar ao conto. hehee

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