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Penny Dreadful e sua linguagem visual emocional

Foto do escritor: Odilon Júnior
Odilon Júnior
22 de jan.
3 min de leitura
    Penny Dreadfull e sua linguagem visual e emocional

Penny Dreadful começa com ação e mistério, despertando ansiedade e curiosidade sobre qual será, afinal, o seu verdadeiro desfecho. A série entrega respostas e enigmas aos poucos, especialmente quando personagens conhecidos como Jack - o estripador, Frankenstein, Drácula e Dorian Gray surgem ou são apenas mencionados. Esse constante aparecimento de figuras e histórias nos conduz a seus dilemas e às suas vidas na Londres da era vitoriana, sob uma forte perspectiva existencialista.

É uma série voltada para quem aprecia terror atmosférico, densidade emocional e referências literárias. Não se trata de horror direto nem de ação constante, mas de algo mais profundo e esteticamente bonito, com uma narrativa e uma identidade visual que respeitam um ritmo próprio.

Particularmente, gostei muito das três temporadas. Mesmo que a terceira apresente um desfecho diferente do esperado, acabei aceitando o final ao compreender melhor as razões e escolhas dos personagens.

Vanessa Ives, a personagem central e emocional da série, desperta em nós uma curiosidade constante sobre seu passado. Ela carrega, de forma visível, a culpa; aparenta ter fé na salvação, mas manifesta emoções que sugerem que já aceitou a condenação. Sua trajetória conecta os demais personagens em torno de uma decisão inevitável: escolher entre a salvação ou a condenação, tão evidentes em seus atos, mas apresentadas de maneira carnal e humana — afinal, ela deve viver ou morrer?

A principal força da série está na convergência entre direção de arte, narrativa literária e construção simbólica. Penny Dreadful é uma obra de terror psicológico contemporâneo que dialoga diretamente com o gótico clássico. Aqui, o horror não é compreendido apenas como susto, mas como estética, linguagem e estado emocional.

Ao analisarmos a direção de arte e a identidade visual, percebemos uma paleta de cores dominada por tons escuros, dessaturados e terrosos, que evocam decadência, luto e repressão — elementos centrais da narrativa. Os ambientes são sufocantes, quase claustrofóbicos, funcionando como extensões do estado psicológico dos personagens.

E há o uso marcante do chiaroscuro, técnica de iluminação baseada no contraste entre luz e sombra. Esse recurso, aplicado de forma teatral, reforça a sensação de que estamos observando personagens presos em seus próprios infernos internos, por meio de enquadramentos simétricos e escolhas visuais extremamente calculadas.

A narrativa segue em um ritmo lento, porém intencional, envolvendo o espectador no processo emocional dos personagens. Trata-se de uma aposta clara em uma estrutura mais contemplativa, quase literária. Sob a ótica da gamificação narrativa, a série trabalha fortemente com imersão e progressão emocional: cada episódio adiciona novas camadas aos personagens em vez de oferecer respostas fáceis, recompensando o espectador atento com aprofundamento psicológico e simbólico.

Os diálogos, frequentemente carregados de subtexto e, por vezes, desconfortáveis, revelam forte influência da literatura gótica e do teatro clássico. São poéticos, densos e essenciais para a construção da atmosfera.

Outra questão muito bem apresentada na série é a capacidade humana de se ludibriar diante da ideia de “poder”. Vemos isso nas mulheres que se unem para matar homens, na mãe que permite a morte do próprio filho acreditando em seu retorno à vida — assim como o pai, o monstro — e, claro, em toda a trajetória de Frankenstein. Tudo isso é construído dentro do contexto narrativo da obra, revelando a fragilidade humana diante do poder inconsequente e as consequências reais e irreversíveis de suas escolhas.

Concluindo, Penny Dreadful é uma série interessante, bonita e repleta de mistérios e referências. Vale a pena assisti-la com calma, permitindo-se conhecer seus personagens e respeitar o ritmo de cada episódio.

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